“Não Quero Que as Férias Acabem!”: Como Ajudar as Crianças a Regressar às Rotinas

“Não Quero Que as Férias Acabem!”: Como Ajudar as Crianças a Regressar às Rotinas

No final de agosto, começa a surgir uma espécie de contagem decrescente. Os adultos pensam no regresso ao trabalho, nos horários, no material escolar e em tudo o que é preciso organizar para setembro. Para muitas crianças, porém, a realidade é bem mais simples: ainda estão de férias e gostariam de continuar assim.

Depois de semanas com mais liberdade, dias longos, brincadeiras, menos horários e mais tempo para fazer aquilo de que gostam, ouvir “temos de começar a voltar à rotina” nem sempre é recebido com entusiasmo.

“Já tenho de ir dormir mais cedo?”
“Não quero voltar para a escola.”
“Porque é que já não posso ficar mais tempo a jogar?”
“Não quero que as férias acabem!”

Perante esta resistência, é tentador começar imediatamente a preparar a criança para aquilo que vem a seguir: explicar que a escola também vai ser divertida, recordar os amigos que vai reencontrar ou insistir que é preciso começar a habituar-se aos horários.

Mas talvez, antes de tentarmos criar entusiasmo pelo regresso, possamos parar um pouco e reconhecer com a criança ou adolescente aquilo que está a terminar.

Para eles, o fim das férias pode significar despedir-se de um período associado a liberdade, brincadeira, família e menos obrigações. Mesmo quando gostam da escola, podem sentir tristeza por deixar este ritmo para trás. E essa tristeza pode aparecer de muitas formas: irritabilidade, oposição, falta de vontade ou uma insistência aparentemente interminável em aproveitar “só mais um bocadinho”.

Como podemos, então, ajudá-los a regressar às rotinas sem transformar os últimos dias de férias num cenário de guerra? Será necessário recuperar todos os horários de uma vez? E como encontrar um equilíbrio entre acolher aquilo que a criança sente e, ao mesmo tempo, prepará-la para uma mudança que inevitavelmente vai acontecer?

Talvez o regresso não precise de começar pela motivação. Talvez possa começar, simplesmente, pela adaptação.

 

É normal não querer que as férias acabem

Quando uma criança protesta perante o fim das férias, nem sempre está a rejeitar a escola ou as rotinas. Muitas vezes, está simplesmente a reagir ao fim de algo de que gostou.

Os adultos conhecem bem esta sensação. Também podemos sentir alguma resistência no domingo à noite, no último dia de férias ou quando termina um período particularmente feliz. Sabemos que é preciso regressar, mas isso não impede que uma parte de nós preferisse ficar mais um pouco onde estava.

Com as crianças acontece algo semelhante, com uma diferença importante: ainda estão a desenvolver a capacidade de compreender e regular emoções complexas. Podem sentir simultaneamente vontade de rever os amigos e tristeza porque as férias terminaram; curiosidade pelo novo ano e ansiedade perante aquilo que vai mudar. Uma emoção não anula a outra.

Por isso, a resistência ao regresso nem sempre aparece sob a forma de um claro “estou triste porque as férias estão a acabar”. Pode surgir através de maior irritabilidade, dificuldade em aceitar limites, protestos quando se fala da escola ou uma aparente falta de vontade para começar a recuperar hábitos.

Nestes momentos, é fácil entrar numa tentativa de convencer a criança de que não tem razões para estar triste:
“Mas vais voltar a ver os teus amigos!”
“Já tiveste tantas semanas de férias.”
“Vais ver que quando começares até vais gostar.”

Todas estas frases podem nascer de uma boa intenção. Queremos tranquilizar, entusiasmar, tornar a mudança mais fácil. Mas uma criança não precisa necessariamente que lhe mostremos o lado positivo antes de sentirmos com ela o lado difícil. Às vezes, uma resposta tão simples como “Eu sei. Custa quando uma coisa de que gostamos muito está a acabar” é suficiente para mostrar que aquilo que sente tem espaço para existir.

Validar esta tristeza não significa alimentar a resistência nem negociar aquilo que não pode ser negociado. As férias vão terminar, os horários vão mudar e a escola vai começar. Podemos manter essa realidade e, ao mesmo tempo, reconhecer que a criança pode não gostar dela.

Esta distinção é muito importante na educação emocional: acolher uma emoção não significa permitir todos os comportamentos que surgem a partir dela. Uma criança pode estar zangada por ter de desligar o ecrã e, ainda assim, o ecrã ser desligado. Pode não querer deitar-se mais cedo e, ainda assim, começar a recuperar o horário de sono. O limite mantém-se; aquilo que muda é a forma como a acompanhamos perante esse limite.

É assim que conseguimos dar início a uma transição mais tranquila: não quando conseguimos convencer a criança a querer que as férias acabem, mas quando ela percebe que não precisa de estar feliz com a mudança para conseguir passar por ela. Crescer também é aprender a despedirmo-nos das coisas boas, sabendo que podemos sentir saudades delas enquanto avançamos para aquilo que vem a seguir.

 

O cérebro também precisa de tempo para mudar de ritmo

Depois de várias semanas de férias, não são apenas os horários que estão diferentes. O próprio quotidiano da criança passa a funcionar a outro ritmo.

As manhãs podem começar mais tarde, as refeições tornam-se mais flexíveis, os dias prolongam-se e existe menos necessidade de cumprir horários rígidos. Em muitas famílias, também há maior liberdade no tempo passado em frente aos ecrãs, sobretudo nos dias sem planos ou quando os adultos continuam a trabalhar.

Por isso, esperar que uma criança passe deste ritmo para o ritmo escolar de um dia para o outro pode ser uma exigência maior do que parece.

O sono é talvez o exemplo mais evidente. O nosso organismo possui um relógio interno que ajuda a regular os períodos de sono e vigília e que responde, entre outros fatores, à luz e à regularidade dos horários. Quando, durante várias semanas, uma criança se habitua a deitar-se e a acordar mais tarde, esse ritmo não se antecipa automaticamente só porque o calendário diz que as aulas estão prestes a começar.

É precisamente por isso que especialistas em medicina do sono recomendam uma transição gradual dos horários antes do regresso à escola, em vez de esperar pelo primeiro dia de aulas para alterar subitamente a hora de deitar e de acordar. A regularidade do sono é particularmente importante porque dormir o suficiente está associado, nas crianças e adolescentes, a melhores resultados ao nível da atenção, aprendizagem, memória, comportamento e regulação emocional.

Os ecrãs também entram nesta equação, sobretudo quando ocupam o final do dia. Uma revisão sistemática de 67 estudos encontrou uma associação consistente entre maior exposição a ecrãs e resultados de sono menos favoráveis nas crianças e adolescentes, nomeadamente horários de sono mais tardios e menor duração do sono. É importante não confundir associação com causalidade, os próprios investigadores chamam a atenção para essa limitação, mas a relação é suficientemente consistente para justificar atenção aos hábitos digitais, especialmente à noite.

As recomendações frequentemente apontam para rotinas de sono consistentes e evitar ecrãs durante a hora que antecede o momento de dormir. A exposição à luz e a própria estimulação provocada por determinados conteúdos podem dificultar a preparação para o sono.

Isto não significa que seja necessário fazer uma “desintoxicação digital” antes da escola. Aliás, talvez seja mais útil abandonar essa ideia e pensar numa reorganização progressiva dos hábitos. Se durante as férias houve maior flexibilidade, podemos começar a recuperar alguns limites, voltar a criar momentos sem ecrãs e antecipar com a criança aquilo que vai mudar quando começarem as aulas.

E aqui existe uma diferença importante entre preparar e pressionar.

Preparar é aproximar gradualmente a hora de dormir daquela que será necessária durante o período escolar. É voltar a dar alguma previsibilidade às manhãs e às refeições. É reduzir os ecrãs ao final do dia e recuperar pequenos rituais que ajudam o corpo a desacelerar.

Pressionar seria transformar os últimos dias de agosto numa imitação antecipada da escola, enchendo-os de horários rígidos, exercícios ou obrigações para que a criança “se habitue”.

Isso não é necessário.

A transição pode acontecer sem retirar às crianças os últimos dias de férias. Esse é precisamente o equilíbrio que procuramos: não esperar por setembro para mudar tudo de repente, mas também não fazer setembro chegar antes do tempo. Regressar às rotinas não exige carregar num interruptor. O sono, os horários e os hábitos podem ser reajustados progressivamente, dando à criança tempo para se adaptar ao ritmo que aí vem.

 

E quando aparece o “não quero”?

Nem sempre a resistência ao regresso às rotinas aparece de forma clara. Uma criança dificilmente dirá: “Estou a sentir alguma dificuldade em adaptar-me à mudança entre as férias e o período escolar.”

É mais provável ouvirmos:

“Não quero.”
“Não me apetece.”
“É uma seca.”
“Porque é que tenho de fazer isso?”

E, quando estas respostas se repetem, é fácil interpretá-las como preguiça, falta de colaboração ou uma tentativa de desafiar os adultos. Mas o comportamento nem sempre conta a história toda.

Por detrás de um “não quero” podem existir coisas muito diferentes. Pode haver cansaço, dificuldade em interromper uma atividade agradável, frustração perante a perda de liberdade ou simplesmente necessidade de mais tempo para se adaptar. E, quando o regresso à escola se aproxima, também podem surgir preocupações que a criança ainda não consegue explicar: um professor novo, uma turma diferente, medo de não acompanhar a matéria, saudades dos pais ou receio de voltar a encontrar uma situação difícil que viveu no ano anterior.

Isto não significa que cada protesto esconda uma grande preocupação. Às vezes, “não quero” significa mesmo “preferia continuar a brincar”. E isso também é legítimo.

A questão está em não responder automaticamente a todas estas situações da mesma forma. Perante uma resistência persistente, podemos trocar “Não tens nada com que te preocupar” por “Há alguma coisa no regresso que te esteja a deixar preocupado?”; ou “Tens de começar a ganhar vontade” por “O que achas que vai ser mais difícil quando voltarmos à rotina?”

Algumas crianças precisam de tempo para perceber aquilo que sentem e outras expressam-se melhor enquanto brincam, desenham ou conversam sobre outro assunto. O objetivo não é transformar cada “não quero” numa longa conversa sobre emoções, mas manter alguma curiosidade sobre aquilo que o comportamento pode estar a comunicar.

Ao mesmo tempo, compreender não significa retirar todos os limites. Podemos reconhecer “Eu sei que preferias continuar a jogar” e manter a hora de desligar a consola. Podemos acolher “Percebo que não te apeteça preparar a mochila” e continuar a fazê-lo juntos. A validação e os limites podem coexistir: a emoção não precisa de desaparecer para conseguirmos avançar.

E há uma diferença importante entre uma resistência expectável perante o fim das férias e um sofrimento que merece maior atenção. Se a aproximação da escola provocar ansiedade muito intensa ou persistente, alterações significativas no sono ou no apetite, sintomas físicos recorrentes ou uma recusa escolar acentuada, vale a pena tentar compreender mais profundamente o que está a acontecer e, se necessário, procurar apoio especializado.

 

Tornar a criança parte da transição

Há muitas coisas no regresso às rotinas que uma criança não pode escolher. As férias vão terminar, a escola vai começar e haverá novamente horários, compromissos e responsabilidades.

Mas não poder decidir se uma mudança acontece não significa não poder participar na forma como ela acontece.

Dar à criança algum espaço de participação pode tornar esta transição menos passiva. Em vez de sentir que setembro é simplesmente uma sucessão de decisões tomadas pelos adultos, a criança pode começar a perceber que também tem um lugar na construção da nova rotina.

A investigação sobre motivação ajuda-nos a compreender porquê. A Teoria da Autodeterminação, uma das abordagens mais estudadas nesta área, identifica três necessidades psicológicas particularmente relevantes para a motivação e o bem-estar: autonomia, competência e relação com os outros. A autonomia, neste contexto, não significa deixar a criança fazer tudo aquilo que quer. Significa deixá-la sentir que existe algum espaço para participar, escolher e agir com intenção, em vez de sentir apenas que tudo lhe é imposto.

Isto pode traduzir-se em coisas muito simples.

Talvez a criança não possa escolher a hora a que tem de sair de casa, mas pode decidir o que quer preparar na noite anterior. Não pode escolher se precisa de material escolar, mas pode participar na organização da mochila ou do espaço onde costuma estudar. Pode ajudar a pensar nos lanches, escolher entre duas opções para o pequeno-almoço ou decidir que pequeno ritual familiar gostaria de manter quando as aulas começarem.

São escolhas pequenas, e é precisamente essa a ideia.

Dar autonomia não é entregar à criança decisões que ainda não lhe pertencem. É encontrar, dentro dos limites necessários, decisões que já pode começar a tomar.

Esta distinção é importante porque apoiar a autonomia não significa retirar estrutura. Pelo contrário, investigação nesta área aponta para o valor de combinar oportunidades de escolha com orientação e limites claros. As crianças continuam a precisar de adultos que definam expectativas adequadas à idade; o que pode mudar é a possibilidade de terem voz dentro dessa estrutura.

Há ainda outro benefício: participar permite começar a construir uma sensação de competência. Preparar sozinho parte da mochila, lembrar-se do que precisa para uma atividade ou conseguir cumprir uma pequena responsabilidade transmite à criança uma mensagem diferente de “agora tens de voltar a fazer tudo isto”. Mostra-lhe: “Há coisas que já consegues fazer e nós confiamos em ti para participares.”

E isto pode ser especialmente importante quando falamos de motivação. Uma meta-análise que reuniu 144 estudos e mais de 79 mil estudantes encontrou uma relação entre contextos que apoiam autonomia, satisfação das necessidades psicológicas e formas mais autónomas de motivação. A competência surgiu, aliás, como um dos preditores particularmente importantes dessa motivação.

Não precisamos, portanto, de fabricar entusiasmo pelo novo ano letivo. Podemos começar por algo mais concreto: dar à criança oportunidades para sentir que consegue participar naquilo que vem a seguir.

Também aqui convém respeitar a idade e a personalidade. Uma criança pequena precisará de escolhas muito simples e de bastante acompanhamento. Uma criança mais velha poderá assumir responsabilidades maiores e participar em decisões mais complexas. O objetivo não é acrescentar tarefas, mas ir transferindo pequenas parcelas de responsabilidade à medida que a criança demonstra estar preparada para elas. Trata-se de um processo consistente com aquilo que a investigação sobre desenvolvimento da autorregulação descreve como apoio gradual à autonomia.

Por isso, em vez de perguntarmos apenas “Como vou voltar a pôr tudo em ordem antes das aulas?”, talvez possamos acrescentar outra pergunta: “Em que parte desta transição o meu filho já pode participar?”. Quando uma criança tem voz nas pequenas coisas que pode controlar, aquilo que não pode escolher pode tornar-se um pouco mais fácil de aceitar.

 

Encerrar o verão antes de começar um novo capítulo

Quando uma etapa termina, temos tendência a dirigir rapidamente a atenção para aquilo que vem a seguir. No final das férias acontece o mesmo: começam as compras para a escola, a organização dos horários, as mochilas, os livros e as conversas sobre o novo ano letivo.

Mas, antes de perguntar “Estás preparado para voltar?”, talvez possamos fazer uma pergunta diferente: “O que gostavas de guardar destas férias?”

Dar espaço para recordar aquilo que vivemos não serve apenas para prolongar um pouco o sabor do verão. As conversas familiares sobre experiências passadas têm um papel importante na forma como as crianças constroem as suas memórias autobiográficas (as histórias que vão formando sobre aquilo que viveram e, progressivamente, sobre si próprias).

A investigação nesta área mostra que a forma como pais e filhos recordam experiências em conjunto está relacionada com o desenvolvimento da memória autobiográfica das crianças. Uma meta-análise de 34 estudos encontrou uma associação entre conversas mais elaboradas sobre acontecimentos passados e a capacidade das crianças para construírem memórias pessoais mais detalhadas. Outros trabalhos relacionam estas conversas familiares não apenas com a construção das narrativas autobiográficas, mas também com aspetos do autoconceito e do desenvolvimento emocional.

Não significa, claro, que seja necessário transformar o final das férias numa atividade estruturada de reflexão. Às vezes, basta sentarmo-nos juntos a ver fotografias e deixar que apareçam histórias: “Lembras-te daquele dia?”, “Qual foi a parte mais divertida?”, “Houve alguma coisa que te surpreendeu?”

Podemos também criar um pequeno ritual familiar: O Livro de Memórias do Verão!

O nome é mais sofisticado do que a atividade. Pode ser um caderno, algumas folhas agrafadas ou até uma caixa onde ficam guardadas pequenas recordações… Uma fotografia. Um desenho. O bilhete de um passeio. Uma concha apanhada na praia. Uma frase engraçada que alguém disse. A receita de algo que fizeram juntos.

A criança pode escolher aquilo que quer guardar e, enquanto o faz, podemos deixar surgir algumas perguntas:

Qual foi o momento em que mais te divertiste?
Houve alguma coisa que fizeste pela primeira vez?
O que foi difícil e conseguiste fazer na mesma?
O que tornou estas férias especiais?
O que gostavas de repetir no próximo verão?

Não precisamos de fazer todas as perguntas. Muito menos de transformar o momento numa entrevista. O valor está também na conversa que nasce enquanto escolhem fotografias, fazem desenhos e se lembram de episódios que já tinham quase esquecido. E talvez apareçam descobertas interessantes.

A criança que no início do verão tinha medo de mergulhar e agora já salta para a água. Aquela que conseguiu dormir pela primeira vez em casa dos avós. A que fez um novo amigo. A que aprendeu a andar de bicicleta ou conseguiu lidar melhor com perder num jogo.

Recordar permite também tornar visíveis estas pequenas conquistas. Antes de começarmos a falar de tudo aquilo que a criança terá de aprender no próximo ano, podemos ajudá-la a perceber tudo aquilo que já foi capaz de aprender enquanto estava simplesmente a viver.

Depois de olhar para trás, podemos então abrir uma pequena janela para aquilo que vem a seguir.

Em vez de começar por “Que notas queres ter este ano?”, “Em que disciplina precisas de melhorar?” ou “O que vais fazer melhor desta vez?”, podemos experimentar uma proposta muito mais aberta: “Três coisas que gostavas de experimentar este ano”. Não precisam de ser académicas. Nem sequer precisam de ser particularmente importantes aos olhos dos adultos.

“Gostava de aprender a andar de skate.”
“Quero conseguir preparar a mochila sozinho.”
“Gostava de convidar um amigo novo para brincar.”

Podem ser curiosidades, pequenos desafios ou experiências que a própria criança gostaria de viver.

Esta diferença é relevante do ponto de vista da motivação. A investigação sobre autodeterminação mostra que a motivação não depende apenas de termos um objetivo, mas também da forma como nos relacionamos com ele. Como já vimos, sentir autonomia, competência e ligação aos outros favorece formas mais autónomas de motivação; oportunidades de escolha e participação podem contribuir para essa sensação de autonomia.

Por isso, não estamos a criar três objetivos para os pais escolherem e a criança cumprir. Estamos a perguntar-lhe o que desperta a sua curiosidade quando pensa nos próximos meses.

E se não lhe ocorrer nada naquele momento, também não há problema. Não precisamos de terminar agosto com um plano de desenvolvimento pessoal para uma criança. O objetivo deste ritual é muito mais simples: permitir que exista um momento entre aquilo que termina e aquilo que começa.

Um momento para dizer: “Estas férias foram nossas. Aconteceram muitas coisas. Algumas vão ficar connosco. E agora há outras que ainda não sabemos como vão acontecer.”

Preparar um novo começo não implica romper com aquilo que fica para trás, mas reconhecer o que vivemos, guardar o que foi importante e deixar algum espaço para ter curiosidade pelo que vem a seguir.

 

Não precisamos que regressem entusiasmados

À medida que o primeiro dia de aulas se aproxima, há uma pergunta que costuma aparecer nas conversas com as crianças: “E então, estás entusiasmado por voltar à escola?”

Algumas estarão. Sentem saudades dos amigos, querem conhecer o novo professor, estrear os materiais ou descobrir o que as espera. Outras responderão com um encolher de ombros. E haverá ainda aquelas que não hesitam: “Não!”

É tentador contrariar imediatamente essa resposta.

“Vais ver que vai ser tão bom!”
“Quando encontrares os teus amigos, mudas logo de ideias.”
“Não tens motivo nenhum para estar preocupado.”

Dizemo-lo para tranquilizar. Queremos que a criança entre no novo ano confiante e, se possível, feliz. Mas confiança não é o mesmo que entusiasmo.

As transições escolares podem trazer sentimentos diferentes, incluindo ansiedade e insegurança, e a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) recomenda precisamente que os adultos estejam atentos a essas reações. Uma criança pode sentir-se preparada para regressar e, ainda assim, preferir continuar de férias. Pode querer rever os amigos e não ter vontade nenhuma de voltar às aulas. Pode estar curiosa e preocupada ao mesmo tempo.

Não precisamos de escolher uma destas emoções e convencer a criança a abandonar as outras. Podemos responder: “Percebo. Ainda estavas a gostar muito das férias.”. Ou, perante alguma preocupação: “Há alguma coisa no regresso que esteja a deixar-te mais inquieto?”

E, se a criança não quiser conversar, não precisamos de insistir. Mostrar disponibilidade também é deixar uma porta aberta para que possa voltar ao assunto quando precisar.

Isto não significa apresentar o regresso à escola como algo negativo. A própria Direção-Geral da Educação salienta que as transições podem ser oportunidades de crescimento, novas aprendizagens e novas relações, mas chama igualmente a atenção para a necessidade de respeitar as características de cada criança e de construir a nova etapa a partir daquilo que ela já sabe e consegue fazer.

Talvez seja esse o equilíbrio de que precisamos.

Podemos falar das coisas boas que estão para chegar sem transformar o otimismo numa obrigação. Podemos transmitir confiança sem prometer que tudo será fácil. E podemos lembrar à criança aquilo que já conseguiu ultrapassar, sem lhe pedir que deixe de sentir receio.

Sobretudo, podemos evitar que os últimos dias de férias se transformem numa contagem decrescente carregada de avisos: “Quando começarem as aulas já não podes fazer isto”, “Aproveita porque depois acabou” ou “Quero ver como vai ser quando tiveres de acordar cedo.”.

Essas frases parecem preparar a criança para a realidade, mas podem acabar por apresentar setembro como uma coleção de perdas antes do mês sequer começar.

O regresso não precisa de ser vendido como fantástico. Precisa de parecer possível.

E essa é possivelmente uma mensagem muito mais tranquilizadora para uma criança: “Não tens de saber exatamente como vai ser. Não tens de estar entusiasmado com tudo. Vamos descobrir aos poucos, estamos contigo.”

A OPP recorda, aliás, que uma transição escolar não se resume ao primeiro dia: é um processo de adaptação que envolve mudanças nas relações, nas regras, nos espaços e nas exigências de aprendizagem. Talvez devamos, por isso, dar às crianças aquilo que também gostaríamos que nos dessem perante uma mudança importante: tempo para nos adaptarmos sem a obrigação de gostarmos imediatamente dela.

 

Conclusão

O fim das férias traz consigo uma mudança que se sente em toda a família. Os dias tornam-se novamente mais organizados, regressam os horários e as responsabilidades e começa um novo ano cheio de coisas que ainda não sabemos como vão correr.

Para algumas crianças, esta passagem será feita com entusiasmo. Para outras, virá acompanhada de saudades, protestos, alguma ansiedade ou simplesmente vontade de ficar mais uns dias naquele ritmo em que havia mais tempo para brincar.

Nenhuma destas reações precisa de ser apressada.

Preparar setembro não tem de significar fazer as férias desaparecerem antes do tempo. Podemos recuperar gradualmente alguns hábitos, conversar sobre aquilo que está para chegar e, ao mesmo tempo, deixar espaço para os últimos mergulhos, para as manhãs mais lentas e para aquela vontade tão legítima de que o verão durasse só mais um bocadinho.

E quando surgir o inevitável “Não quero que as férias acabem!”, talvez não seja necessário encontrar imediatamente uma forma de mudar aquilo que a criança sente.

Podemos reconhecer a saudade. Recordar aquilo que viveu. Escutar aquilo que a preocupa. E transmitir-lhe confiança de que conseguirá adaptar-se ao que vem a seguir, mesmo que ainda não esteja desejosa de lá chegar.

Porque preparar uma criança para uma mudança não significa garantir que está feliz com ela. Significa ajudá-la a sentir que tem recursos, tempo e apoio para a atravessar.

E talvez seja essa uma das aprendizagens mais importantes deste final de verão: as mudanças nem sempre precisam de ser desejadas para poderem ser vividas com segurança. As férias podem acabar sem termos de as apagar. Guardamos o que vivemos, damos espaço ao que sentimos e, aos poucos, abrimos caminho para um novo começo.

 

 

Perguntas Frequentes

É normal uma criança ficar triste porque as férias estão a acabar?

Sim. O fim das férias significa deixar para trás um período normalmente associado a mais liberdade, brincadeira e tempo em família. Algumas crianças podem mostrar tristeza, irritabilidade ou resistência perante essa mudança, mesmo quando gostam da escola. Acolher essas emoções não significa incentivar a resistência, mas reconhecer que as transições podem precisar de tempo.

Quantos dias antes da escola devemos começar a recuperar as rotinas?

Não existe um número de dias que funcione para todas as famílias. O mais importante é evitar deixar todas as mudanças para a véspera das aulas. Se os horários se alteraram bastante durante as férias, pode ser útil começar alguns dias antes a aproximar gradualmente as horas de dormir e acordar daquelas que serão necessárias durante o período escolar.

Devemos reduzir os ecrãs antes do regresso às aulas?

Se durante as férias houve maior flexibilidade, pode fazer sentido reorganizar progressivamente o tempo de ecrã antes do início das aulas, sobretudo ao final do dia. Mais do que fazer uma “desintoxicação digital”, o objetivo é recuperar hábitos compatíveis com o sono, as rotinas familiares e as exigências do período escolar.

O que fazer quando a criança diz que não quer voltar à escola?

Antes de tentar convencê-la de que vai gostar, vale a pena escutar. Um “não quero voltar” pode significar simplesmente que gostaria de continuar de férias, mas também pode esconder preocupações sobre os colegas, professores, aprendizagens ou outras mudanças. Perguntas abertas e uma atitude curiosa podem ajudar a perceber o que está por detrás dessa resistência.

E se a criança estiver muito ansiosa com o regresso à escola?

Alguma preocupação perante uma mudança pode ser natural. No entanto, se a ansiedade for muito intensa ou persistente, interferir significativamente com o sono ou o apetite, provocar sintomas físicos recorrentes ou surgir uma forte recusa em ir à escola, é importante procurar compreender o que está a acontecer. Se necessário, poderá ser útil conversar com a escola e procurar apoio de um profissional de saúde.

Como podemos motivar uma criança para o novo ano letivo?

Nem sempre é necessário criar motivação antes do regresso. Podemos envolver a criança na preparação, dar-lhe pequenas escolhas adequadas à idade e conversar sobre coisas que gostaria de experimentar ou descobrir no novo ano. Mais importante do que fazê-la sentir-se entusiasmada é ajudá-la a sentir que é capaz de enfrentar a mudança e que terá apoio enquanto se adapta.

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