Porque Discutem Tanto os Irmãos nas Férias? E Porque Isso Nem Sempre É Mau

Porque Discutem Tanto os Irmãos nas Férias? E Porque Isso Nem Sempre É Mau

As férias decorrem e, com elas, os dias passados em família, as brincadeiras intermináveis, os mergulhos, os passeios... e, inevitavelmente, as discussões.

"É meu!"

“Ele é que começou!”

"Ela fez de propósito!"

"Mas agora era a minha vez!"

Seja entre irmãos, primos ou amigos, basta passarem algum tempo juntos para surgirem desentendimentos que, por vezes, parecem acontecer pelos motivos mais insignificantes. E, enquanto as crianças discutem, muitos adultos fazem a mesma pergunta: "Porque é que eles não conseguem simplesmente brincar em paz?"

E damos por nós a sentir que alguma coisa está a correr mal. Que as férias deveriam ser mais tranquilas, que as crianças deveriam aproveitar melhor o tempo juntas ou que cabe aos adultos impedir que cada pequena discussão se transforme num conflito maior.

Mas será que discutir significa, necessariamente, que as crianças não se estão a divertir? E que devia ser diferente?

Ao longo deste artigo, vamos perceber porque é que as discussões tendem a aumentar durante as férias, que competências de inteligência emocional podem ser desenvolvidas nestes momentos e qual pode ser o papel dos adultos no meio destas tempestades infantis.


Porque é que os conflitos aumentam durante as férias?

Pode parecer contraditório: as férias são, para muitas crianças, o momento mais esperado do ano. Há mais tempo para brincar, menos horários para cumprir e mais oportunidades para estar com irmãos, primos e amigos. Ainda assim, é precisamente nesta altura que muitos adultos sentem que as discussões se multiplicam.

A explicação é mais simples do que parece. Quanto mais tempo passamos com alguém, mais oportunidades existem para surgirem diferenças de opinião, vontades incompatíveis ou pequenos desentendimentos. As crianças não são exceção. Pelo contrário, como ainda estão a desenvolver competências socioemocionais, é natural que esses conflitos apareçam com maior frequência.

Durante as férias, as rotinas alteram-se. Há dias mais longos, mais tempo de convivência, mais brincadeiras em grupo e menos momentos de separação. Irmãos e primos partilham brinquedos, espaços, atenção dos adultos e decisões que, durante o resto do ano, nem sempre precisam de negociar. Quem escolhe o jogo? Quem vai primeiro para o banho? Quem fica com a bola? Cada uma destas situações representa um pequeno desafio aos recursos emocionais das crianças.

Também o próprio contexto influencia a forma como reagem. Um dia cheio de estímulos, calor, cansaço ou alterações no sono pode diminuir a capacidade para gerir emoções intensas. Sabemos hoje que a autorregulação depende não apenas da maturidade da criança, mas também do seu estado físico e emocional. Uma criança cansada, com fome ou sobre-estimulada terá, naturalmente, mais dificuldade em controlar impulsos, esperar pela sua vez ou encontrar soluções para um desacordo.

A investigação na área do desenvolvimento infantil tem mostrado que os conflitos entre pares fazem parte do desenvolvimento social. Longe de serem apenas momentos de tensão, constituem oportunidades para as crianças praticarem competências como a negociação, a tomada de perspetiva, a comunicação e a resolução de problemas. É através destas experiências repetidas, e com o apoio adequado dos adultos, que vão aprendendo formas mais eficazes de lidar com os desacordos.

Isto não significa que todos os conflitos sejam sempre positivos ou que os adultos devam assistir passivamente a qualquer discussão. Situações de agressão física, humilhação, intimidação ou desequilíbrio de poder exigem sempre uma intervenção clara e protetora. No entanto, muitos dos pequenos conflitos do quotidiano fazem parte do processo de aprender a viver com os outros.

Talvez, por isso, em vez de nos focarmos na pergunta "Como faço para que deixem de discutir?", podemos começar a pensar "Como posso ajudá-los a aprender com estas situações?"


O conflito também ensina

É natural que os adultos procurem resolver logo os conflitos. Afinal, ninguém gosta de ouvir discussões constantes ou de interromper um momento tranquilo porque duas crianças não conseguem chegar a acordo sobre um brinquedo ou uma brincadeira. Este impulso resulta, muitas vezes, da vontade de resolver o desconforto que esses conflitos causam em nós, por contágio emocional, por exemplo.

No entanto, eliminar todos os conflitos não prepara uma criança para viver em sociedade.

As relações humanas são, por natureza, feitas de diferenças. Ao longo da vida, todos teremos de lidar com opiniões divergentes, gerir frustrações, negociar interesses, reparar mal-entendidos e encontrar formas de cooperar com pessoas que nem sempre pensam ou agem como nós. As crianças começam a aprender tudo isto muito antes da idade adulta, precisamente nas pequenas discussões do dia a dia.

Quando duas crianças querem o mesmo brinquedo, não estão apenas a disputar um objeto. Estão a confrontar desejos diferentes. Quando uma fica zangada porque perdeu um jogo, está a lidar com a frustração. Quando um primo altera as regras da brincadeira, surge a necessidade de comunicar, negociar e adaptar-se. Por detrás de um conflito aparentemente simples, estão várias competências em desenvolvimento.

É por isso que falamos de competências socioemocionais: a capacidade de reconhecer emoções, controlar impulsos, ouvir o outro, expressar necessidades de forma respeitosa, procurar soluções e reparar uma relação depois de um desacordo. Estas competências não se aprendem através de uma explicação teórica. Desenvolvem-se através da experiência, da prática e da repetição.

Na psicologia do desenvolvimento, este processo é frequentemente descrito como uma aprendizagem social. As crianças constroem novas competências quando enfrentam desafios adequados ao seu nível de desenvolvimento e contam com o apoio de adultos que as ajudam a refletir sobre aquilo que aconteceu, em vez de resolverem tudo por elas. O objetivo não é evitar a dificuldade, mas garantir que a criança não a enfrenta sozinha.

Por isso, talvez devamos olhar para as discussões entre irmãos e primos de uma forma diferente. Em vez de as entendermos apenas como momentos a eliminar o mais rapidamente possível, podemos vê-las como oportunidades para ensinar algo que dificilmente se aprende de outra maneira: como viver com os outros sem deixar de respeitar as próprias emoções e as dos outros.

E isto não significa que devemos prolongar os conflito ou permitir comportamentos agressivos. Significa apenas reconhecer que, quando uma criança aprende a resolver um desacordo de forma mais respeitosa, está a desenvolver competências que lhe serão úteis muito para além das férias. As crianças não aprendem a gerir conflitos nunca discutindo. Aprendem porque passam por eles e, pouco a pouco, descobrem formas melhores de os resolver.


Mediar não é resolver

Perante uma discussão entre irmãos, primos ou amigos, muitas vezes, a solução parece simples: decidir quem tem razão, encontrar uma solução ou, simplesmente, mandar cada um para o seu lado.

No entanto, quando resolvemos sistematicamente os conflitos pelas crianças, podemos estar a retirar-lhes a oportunidade de desenvolver as competências de que vão precisar para resolver os desafios futuros.

Mediar é diferente de resolver.

Resolver significa encontrar uma resposta para o problema. Mediar significa ajudar as crianças a encontrarem essa resposta por si próprias, de acordo com a idade e a maturidade de cada uma.

O adulto não tem que permanecer à margem de qualquer discussão. Pelo contrário. A sua presença é fundamental para garantir que todos se sentem seguros, respeitados e ouvidos. Mas o objetivo deixa de ser descobrir quem começou ou quem tem razão. Passa a ser compreender o que aconteceu, ajudar cada criança a expressar a sua perspetiva e criar condições para que encontrem uma forma de seguir em frente.

Na prática, isto pode significar trocar as respostas prontas e as soluções por perguntas.

Em vez de dizer "Agora brincam cinco minutos cada um", perguntar "Que ideias têm para resolver esta situação?"

Em vez de concluir imediatamente "A culpa foi tua", começar por observar "Vejo que os dois queriam brincar com o mesmo brinquedo e nenhum ficou satisfeito com o que aconteceu, foi isso?"

Estas pequenas mudanças ajudam as crianças a desenvolver uma competência essencial: perceber que um conflito não termina quando um adulto decide quem ganhou. Termina quando as pessoas envolvidas conseguem compreender o que aconteceu e encontrar uma forma de reparar a relação.

Ainda assim é importante salientar que nem todas as discussões devem ser geridas desta forma. Se existir agressão física, humilhação, intimidação ou um grande desequilíbrio entre as crianças, o adulto deve intervir imediatamente para garantir a segurança de todos. A mediação só faz sentido quando existe um ambiente onde é possível conversar, refletir e procurar soluções.

No fundo, mediar é acompanhar sem controlar. É orientar sem substituir. É acreditar que, com o apoio certo, as crianças conseguem desenvolver, passo a passo, as competências necessárias para lidar com os inevitáveis conflitos da vida.


Como acompanhar um conflito sem o resolver por eles

Não existe uma fórmula que funcione em todas as discussões. Cada criança é diferente e cada conflito tem a sua história. Ainda assim, pequenas mudanças na forma como os adultos comunicam, podem ajudar as crianças a desenvolver competências que lhes serão úteis muito para além das férias.

Antes de tudo, há uma ideia importante a recordar: estas estratégias fazem sentido quando as crianças já conseguem ouvir e pensar sobre o que aconteceu.

Se as emoções ainda estão muito intensas, a prioridade não é encontrar uma solução, mas ajudar a recuperar a calma e garantir que todos estão em segurança. Só depois será possível conversar, compreender diferentes perspetivas e procurar uma forma de seguir em frente.

 

1. Primeiro acalme a situação, depois conversem

Quando as emoções estão ao rubro, dificilmente uma criança conseguirá escutar o outro, refletir sobre o seu comportamento ou pensar numa solução. Se houver agressão física, gritos ou um nível de tensão muito elevado, interrompa a situação, afaste as crianças se necessário e dê-lhes tempo para recuperar a calma. Conversar demasiado cedo costuma gerar mais discussão do que aprendizagem.

 

2. Comece por descrever, em vez de julgar

Quando a conversa acontecer, evite interpretações como "Estás outra vez a implicar com o teu irmão" ou "Vocês estão sempre a discutir." Este tipo de frases desperta facilmente uma atitude defensiva.

Experimente começar por descrever apenas aquilo que observou: "Os dois queriam brincar com o mesmo brinquedo." Ou: "Percebo que ambos queriam ser os primeiros a jogar."

Descrever os factos ajuda as crianças a concentrarem-se no problema, em vez de se defenderem umas das outras.

 

3. Fale sobre o comportamento, não sobre a criança

Existe uma grande diferença entre dizer "Foste egoísta" e dizer "Neste momento foi difícil partilhar o brinquedo."

Quando usamos rótulos, a criança pode sentir que está a ser definida por aquele comportamento. Quando falamos sobre aquilo que aconteceu, mostramos que os comportamentos podem mudar e que um conflito não define quem ela é.

O problema não é a própria criança. O problema é a situação que ela ainda não sabe resolver da melhor forma.

 

4. Tente perceber o que está por detrás da discussão

Muitas vezes, aquilo que as crianças discutem não é o verdadeiro problema.

À superfície parece existir uma disputa por um brinquedo, por um lugar ou por uma regra do jogo. Mas, por baixo disso, podem existir necessidades muito diferentes: sentir que também contam, querer participar na brincadeira, precisar de atenção, sentir que algo foi injusto ou simplesmente não querer ficar de fora.

Quando conseguimos perceber aquilo de que cada criança realmente precisa, torna-se muito mais fácil ajudá-las a encontrar soluções que façam sentido para ambas.

 

5. Ajude-as a olhar também para o outro

É natural que, durante um conflito, cada criança esteja muito centrada na sua própria perspetiva. Antes de conseguirem compreender o outro, precisam de sentir que também foram compreendidas.

Depois disso, podemos fazer perguntas simples como: "Como achas que o teu irmão se sentiu?", "Porque é que achas que ele reagiu dessa forma?" ou "O que terá sido importante para ele naquele momento?"

Não se trata de obrigar uma criança a concordar com a outra, mas de desenvolver uma competência essencial para qualquer relação: a capacidade de considerar diferentes perspetivas.

 

6. Convide-as a pensar na solução

É muito mais fácil e rápido decidir por elas. Mas, sempre que possível, vale a pena devolver-lhes uma pequena parte da responsabilidade.

Perguntas como "O que podemos fazer agora?", "Que solução seria justa para os dois?" ou "O que podem experimentar da próxima vez?" ajudam as crianças a desenvolver autonomia, criatividade e resolução de problemas.

Nem sempre encontrarão a melhor resposta, mas é nesse processo que acontece a aprendizagem.

 

7. Valorize a reparação, não a perfeição

Nem todos os conflitos terminam com um pedido de desculpa imediato. E nem precisam.

O mais importante é que as crianças percebam que as relações podem ser cuidadas depois de um desacordo. Reparar pode significar pedir desculpa, devolver um brinquedo, reconstruir um castelo de areia ou encontrar uma forma de voltar a brincar em conjunto.

A forma como acompanhamos um conflito ensina muito mais do que a solução que encontramos para ele. Cada discussão é uma oportunidade para ajudar as crianças a comunicar melhor, compreender o outro e descobrir que os conflitos fazem parte das relações, mas que não têm de as destruir.


Há momentos em que orientar também faz parte

A mediação é uma ferramenta valiosa, mas não significa que todos os conflitos possam (ou devam) ser resolvidos apenas pelas crianças. À medida que crescem, vão adquirindo mais recursos para negociar, comunicar e encontrar soluções. No entanto, essas competências ainda estão em desenvolvimento e nem sempre estarão disponíveis, sobretudo quando as emoções são muito intensas.

Há dias em que o cansaço, a fome, o calor ou a sobrecarga de estímulos tornam mais difícil gerir a frustração. Também existem diferenças de idade, de maturidade ou de personalidade que fazem com que uma das crianças tenha mais dificuldade em compreender a perspetiva do outro ou em controlar os impulsos.

Nestas situações, pode ser preciso mesmo orientar e isso não significa desistir da educação emocional. Significa reconhecer que, naquele momento, as crianças ainda precisam do apoio do adulto para conseguirem voltar a sentir-se seguras.

Por vezes, será necessário estabelecer um limite claro: interromper uma agressão, terminar temporariamente uma brincadeira, decidir como será feita a partilha de um brinquedo ou dizer simplesmente: "Agora vamos fazer uma pausa. Mais logo voltamos a falar sobre isto."

Longe de representar um fracasso, esta intervenção mais diretiva transmite uma mensagem importante: os conflitos podem ser vividos com respeito e existem adultos disponíveis para garantir que ninguém sai magoado, física ou emocionalmente.

À medida que as crianças crescem e acumulam experiências, o papel do adulto tende a mudar. Primeiro, protegemos e orientamos. Depois, mediamos. E, pouco a pouco, vamos conseguindo observar mais e intervir menos. Este é um processo gradual, que acompanha o desenvolvimento de cada criança e não um objetivo que se alcança de um dia para o outro.

Por isso, não se preocupe se nem todas as discussões terminarem com uma solução encontrada pelas crianças. O desenvolvimento das competências socioemocionais não se mede pela quantidade de conflitos que resolvem sozinhas, mas pela forma como, ao longo do tempo, vão precisando de cada vez menos ajuda para os enfrentar.


Conclusão

É provável que, durante estas férias, os seus filhos voltem a discutir. Vão disputar um brinquedo, discordar sobre as regras de um jogo, querer ser os primeiros a mergulhar ou zangar-se por um motivo que, aos olhos dos adultos, parece insignificante.

E isso faz parte.

Os conflitos não significam que as crianças não se dão bem, que as férias estão a correr mal ou que os pais falharam na educação dos filhos. Significam, muitas vezes, que estão a aprender a viver em conjunto, a partilhar espaços, a gerir emoções e a descobrir que as relações não sempre simples.

O papel dos adultos não é eliminar essas dificuldades, é criar um ambiente onde as crianças se sintam seguras para as enfrentar. Haverá momentos para mediar, outros para orientar e outros em que bastará observar à distância e confiar nas competências que, pouco a pouco, vão construindo.

E esta pode ser uma das grandes aprendizagens das férias na infância: perceber que os conflitos não são o fim de uma relação. São, muitas vezes, o início de uma oportunidade para compreender melhor o outro, reparar o que aconteceu e encontrar novas formas de seguir em frente.


FAQ

É normal os irmãos discutirem mais durante as férias?

Sim. Durante as férias, as crianças passam mais tempo juntas, partilham mais espaços, brinquedos e atenção dos adultos, enquanto as rotinas se tornam menos estruturadas. É natural que isso aumente as oportunidades para surgirem conflitos. Na maioria das situações, estas discussões fazem parte do desenvolvimento e não significam que os irmãos se deem mal.

Devo intervir sempre que os meus filhos discutem?

Nem sempre. Se o conflito é respeitoso e as crianças conseguem tentar encontrar uma solução, pode ser útil observar antes de intervir. No entanto, sempre que existir agressão física, humilhação, intimidação ou um grande desequilíbrio entre as crianças, o adulto deve intervir para garantir a segurança e ajudar a orientar a situação.

O que significa mediar um conflito?

Mediar não é decidir quem tem razão nem resolver o problema pelas crianças. Significa ajudá-las a compreender o que aconteceu, identificar as emoções e necessidades envolvidas, ouvir diferentes perspetivas e encontrar, sempre que possível, uma solução em conjunto. O objetivo é desenvolver competências que lhes permitam gerir melhor os conflitos no futuro.

O que faço se os meus filhos estiverem demasiado zangados para conversar?

Quando as emoções estão muito intensas, dificilmente as crianças conseguem refletir ou escutar o outro. Nesses momentos, a prioridade é ajudá-las a recuperar a calma e garantir que todos estão em segurança. Só depois faz sentido conversar sobre o que aconteceu e procurar soluções. Em educação emocional, o momento da conversa é tão importante como a conversa em si.

E se a mediação não resultar?

Isso também faz parte do processo. Nem todos os conflitos terminam com um acordo e nem todas as crianças têm, ainda, as competências necessárias para os resolver autonomamente. Em algumas situações, o adulto terá de orientar, estabelecer limites ou tomar uma decisão. O importante é compreender que desenvolver competências socioemocionais é um caminho gradual, feito de muitas oportunidades para aprender, experimentar e voltar a tentar.

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