Quando pensamos numa infância segura, pensamos naturalmente em proteção. Numa casa onde a criança é cuidada, numa escola onde não corre perigo, em adultos atentos às suas necessidades e disponíveis quando alguma coisa acontece.
Mas existe uma dimensão da segurança que é muito menos visível.
O que faz uma criança sentir que pode contar que fez algo errado sem ter medo da reação que vai encontrar? O que lhe permite levantar a mão numa sala de aula e dizer “não percebi”, quando todos os outros parecem ter percebido? Porque é que algumas crianças conseguem dizer aos pais “estou zangado contigo”, enquanto outras aprendem muito cedo a guardar determinadas emoções para si? E o que acontece quando uma criança começa a sentir que é mais seguro esconder um erro, uma dúvida, uma opinião ou uma emoção?
Estas perguntas levam-nos a um conceito fundamental para o desenvolvimento infantil: a segurança emocional.
Falamos muito sobre a importância de proteger as crianças, mas talvez falemos menos sobre aquilo que as faz sentir suficientemente seguras para experimentar, errar, perguntar, discordar, pedir ajuda ou mostrar vulnerabilidade.
E essa segurança não se constrói apenas através daquilo que dizemos às crianças. Constrói-se, sobretudo, naquilo que elas aprendem sobre nós através das experiências que vivem connosco.
Ao longo deste artigo, vamos procurar perceber o que significa, afinal, uma criança sentir-se emocionalmente segura, porque essa segurança é tão importante para o desenvolvimento e, sobretudo, o que podemos fazer, em casa e na escola, para criar ambientes onde ela possa crescer.
Estar protegido e sentir-se emocionalmente seguro não são exatamente a mesma coisa
Uma criança pode saber que existem adultos que cuidam dela e, ainda assim, hesitar antes de lhes contar determinadas coisas. Pode esconder um erro, evitar uma pergunta, disfarçar uma emoção ou guardar uma opinião porque não sabe exatamente o que acontecerá se a mostrar.
Na origem destes comportamentos pode estar a segurança emocional. Ela constrói-se a partir daquilo que a criança aprende sobre as relações que a rodeiam: se pode recorrer aos outros quando precisa, se aquilo que sente encontra espaço para ser expresso e se continua a sentir-se aceite mesmo nos momentos em que erra, discorda ou mostra partes de si mais difíceis de acolher.
A teoria da vinculação, desenvolvida inicialmente por John Bowlby e aprofundada pelo trabalho de Mary Ainsworth, ajuda-nos a compreender porque é que estas experiências são tão importantes para o desenvolvimento. Desde muito cedo, as crianças procuram nos adultos de referência não apenas proteção, mas uma base segura a partir da qual podem explorar o mundo. Saber que existe alguém disponível a quem recorrer perante o medo, o desconforto ou a incerteza dá-lhes condições para se afastarem, experimentar e conquistar progressivamente maior autonomia.
Existe aqui um aparente paradoxo muito interessante: sentir segurança emocional não prende a criança ao adulto; dá-lhe confiança para explorar sem ele.
À medida que cresce, essa base segura vai adquirindo novas formas. Já não se trata apenas de procurar colo quando tem medo ou proximidade quando se magoa. Passa também por saber se pode aproximar-se quando tem uma dúvida, quando fez algo errado, quando sente vergonha ou quando aquilo que pensa é diferente daquilo que o adulto gostaria de ouvir.
É através destas pequenas experiências quotidianas que a criança começa a construir respostas para perguntas que provavelmente nunca formulará em voz alta: Posso contar-te isto? Posso mostrar que não sei? Posso discordar? O que acontece entre nós quando eu erro?
E as respostas não estão apenas naquilo que lhe dizemos. Estão sobretudo naquilo que acontece quando essas situações realmente surgem.
Uma criança pode ouvir muitas vezes “podes contar-me tudo”, mas será a reação do adulto quando ela trouxer uma verdade difícil que lhe mostrará até que ponto isso é verdade. Da mesma forma, podemos dizer que errar faz parte da aprendizagem, mas será a forma como reagimos ao erro que lhe ensinará se pode realmente fazê-lo sem medo.
É assim que a segurança emocional se vai construindo: não através de uma conversa específica ou de uma frase tranquilizadora, mas da acumulação de experiências que permitem à criança confiar na relação também quando aquilo que traz é difícil.
Os sinais de segurança emocional
A segurança emocional nem sempre é fácil de observar. Não existe um comportamento específico que nos permita concluir que uma criança se sente segura e nem todas as crianças o demonstram da mesma forma. Ainda assim, existem pequenas pistas que nos ajudam a perceber como é que uma criança vive determinada relação ou ambiente.
Uma delas é a liberdade para mostrar vulnerabilidade. Dizer “não sei”, admitir “não percebi”, pedir ajuda ou reconhecer que se está com medo implica alguma exposição. Para um adulto, estas frases podem parecer simples; para uma criança, podem significar assumir perante os outros que não consegue, não sabe ou precisa de alguém. Quando existe segurança emocional, essa vulnerabilidade torna-se mais possível porque a criança não espera que a sua dificuldade seja recebida com ridicularização, humilhação ou desvalorização.
O mesmo acontece com as emoções desconfortáveis. É relativamente fácil acolher uma criança que está feliz ou entusiasmada. Mais desafiante é criar espaço para que possa dizer que está zangada connosco, que ficou desiludida com uma decisão que tomámos ou que considera determinada situação injusta. Sentir-se segura não significa acreditar que o adulto irá concordar, mas confiar que pode expressar aquilo que sente sem que a relação fique ameaçada por isso.
A capacidade de discordar é, por isso, outro sinal interessante. Em ambientes onde a segurança depende sobretudo da obediência, as crianças aprendem rapidamente quais são as respostas que agradam aos adultos. Podem tornar-se muito eficazes a antecipar expectativas, evitando opiniões, perguntas ou comportamentos que possam gerar desaprovação. Pelo contrário, quando existe espaço para dizer “eu penso de outra forma” dentro de limites de respeito, a criança percebe que a pertença não exige pensar sempre como os outros.
Também a procura de ajuda nos diz muito. Uma criança que se sente segura não precisa de resolver tudo sozinha para preservar a imagem de competência. Consegue aproximar-se de um adulto quando alguma coisa excede os seus recursos, seja um exercício que não compreendeu, um conflito com amigos ou uma emoção que não sabe gerir. Pedir ajuda deixa de ser entendido como prova de incapacidade e passa a fazer parte da forma como enfrenta dificuldades.
Talvez um dos sinais mais significativos seja, contudo, aquilo que acontece depois de um erro. Quando uma criança parte alguma coisa e vem contar, quando admite que mentiu, quando reconhece que magoou alguém ou quando procura o adulto depois de ter feito uma escolha de que não se orgulha, está a correr um risco relacional. Sabe que poderá existir uma consequência, mas confia suficientemente na relação para trazer o problema até ela.
Isto não significa que uma criança emocionalmente segura conte sempre tudo, peça sempre ajuda ou consiga expressar todas as emoções. O temperamento, a idade, a personalidade e o contexto influenciam profundamente a forma como cada criança comunica. A segurança emocional não deve transformar-se numa nova lista de comportamentos que esperamos que todas as crianças cumpram.
Talvez seja mais útil observá-la através de uma pergunta: quanto espaço sente esta criança que tem para aparecer nesta relação sem precisar de representar uma versão de si própria que seja mais fácil para os adultos?
Porque sentir-se seguro também é poder dizer “não sei”, “preciso de ajuda”, “enganei-me”, “não concordo” ou “estou zangado contigo” e descobrir, pouco a pouco, que nenhuma dessas frases põe em causa o seu lugar na relação ou no ambiente.
Para aprender, é preciso sentir que se pode errar
A segurança emocional tem uma relação particularmente importante com a aprendizagem porque aprender implica, inevitavelmente, alguma exposição. Para descobrir aquilo que ainda não sabemos, precisamos de fazer perguntas, experimentar respostas, testar hipóteses e correr o risco de nos enganarmos. Uma criança que aprende está, muitas vezes, a mostrar aos outros exatamente aquilo que ainda não consegue fazer.
É por isso que uma sala de aula pode ter todas as condições necessárias para ensinar e, ainda assim, não ser um espaço onde todas as crianças se sentem suficientemente seguras para aprender. Se uma resposta errada é recebida com impaciência, se uma dúvida provoca comentários depreciativos ou se o erro é vivido como algo embaraçoso, a criança começa rapidamente a perceber que participar envolve um risco. E, perante esse risco, pode escolher proteger-se: deixa de levantar a mão, evita fazer perguntas, responde apenas quando tem a certeza ou prefere dizer “não sei” antes sequer de tentar.
O conceito de segurança psicológica, estudado pela investigadora Amy Edmondson, ajuda-nos a compreender este fenómeno. Embora o seu trabalho tenha sido desenvolvido sobretudo no contexto das equipas e organizações, a ideia central é particularmente interessante quando pensamos na aprendizagem: para participar, colocar questões, admitir dificuldades ou propor uma ideia que pode estar errada, precisamos de sentir que correr esse risco interpessoal não nos irá expor à humilhação ou à rejeição.
Na infância, estes pequenos riscos estão constantemente presentes. Ler em voz alta quando ainda se tropeça nas palavras, apresentar um trabalho diante da turma, experimentar uma estratégia diferente para resolver um problema ou simplesmente dizer “não percebi” exige coragem quando existe a possibilidade de ser avaliado pelos outros. A forma como os adultos e o próprio grupo respondem a esses momentos influencia aquilo que a criança aprenderá não apenas sobre a matéria, mas também sobre a sua relação com a aprendizagem.
Isto não significa retirar exigência, deixar de corrigir os erros ou elogiar todas as respostas independentemente da sua qualidade. Um ambiente emocionalmente seguro pode (e deve) desafiar as crianças. A diferença está em conseguir separar o erro da identidade de quem errou. Uma resposta pode estar incorreta sem que a criança seja “má a matemática”. Um texto pode precisar de muitas correções sem que isso signifique que quem o escreveu “não sabe escrever”. Uma dificuldade pode indicar simplesmente que existe alguma coisa que ainda precisa de ser aprendida.
Também em casa esta segurança influencia a aprendizagem. Quando uma criança pede ajuda com os trabalhos de casa, mostra uma nota baixa ou admite que não percebeu determinado conteúdo, a primeira reação do adulto pode determinar se, da próxima vez, voltará a procurar ajuda ou tentará esconder a dificuldade. Perguntar “O que foi mais difícil para ti?” abre uma conversa muito diferente de começar imediatamente com “Mas como é que tiveste esta nota?”.
Quando o erro pode ser observado com curiosidade, transforma-se em informação. Permite perceber o que a criança já compreendeu, onde encontrou um obstáculo e aquilo de que precisa para avançar. Quando é acompanhado sobretudo por vergonha ou medo, uma parte importante da energia deixa de estar disponível para aprender e passa a ser utilizada para proteger a própria imagem.
Criar segurança para aprender significa, por isso, permitir que a criança experimente o desconforto de ainda não saber sem acrescentar a esse desconforto o receio de ser diminuída por isso. O desafio continua a existir. A exigência também. O que muda é a possibilidade de enfrentar ambos sem sentir que o próprio valor está em avaliação.
Segurança emocional não significa ausência de limites
Falar de ambientes emocionalmente seguros pode criar a ideia de que, para uma criança se sentir segura, devemos evitar tudo aquilo que lhe provoca desconforto. Como se segurança significasse não contrariar, não corrigir, não exigir ou procurar que as relações sejam permanentemente harmoniosas.
Na verdade, os limites também contribuem para a segurança. Saber que existem adultos capazes de assumir a responsabilidade, estabelecer fronteiras e intervir quando é necessário torna o ambiente mais previsível. A criança não precisa de decidir tudo, nem de ter sempre razão, para sentir que a sua voz é importante.
A diferença está, muitas vezes, na forma como o limite é colocado e naquilo que acontece à relação quando a criança reage a esse limite.
Podemos dizer “não” sem ridicularizar, ameaçar ou humilhar. Podemos corrigir um comportamento sem transformar essa correção num julgamento sobre quem a criança é. Podemos manter uma decisão mesmo perante lágrimas, protestos ou raiva, sem exigir que a criança deixe imediatamente de sentir aquilo que sente. Um limite emocionalmente seguro não depende de a criança gostar dele; depende de ela perceber que pode não gostar e continuar a ter espaço na relação.
Imagine uma criança que quer ficar acordada até mais tarde e recebe um “não”. Pode zangar-se, protestar e considerar a decisão profundamente injusta. O adulto não precisa de mudar a regra para validar essa experiência: “Eu sei que querias muito ficar acordado e percebo que estejas zangado. Mas hoje a hora de dormir mantém-se.” Há simultaneamente espaço para a emoção da criança e firmeza na responsabilidade do adulto.
Esta combinação é particularmente importante porque ajuda a criança a distinguir duas experiências que nem sempre são fáceis de separar: “não posso fazer aquilo que quero” e “aquilo que sinto não é aceite”. A primeira faz inevitavelmente parte da vida. A segunda não precisa de acompanhar todos os limites.
O mesmo acontece quando é necessário corrigir um comportamento. Existe uma diferença significativa entre dizer “o que fizeste não foi aceitável” e transmitir, explícita ou implicitamente, “há qualquer coisa de errado contigo”. Quando conseguimos separar a pessoa do comportamento, podemos responsabilizar sem atacar o seu valor. A criança aprende que as suas escolhas têm consequências e que algumas ações precisam de ser reparadas, mas não precisa de concluir que um erro a transforma numa criança “má”, “difícil” ou “impossível”.
Isto não significa que os adultos consigam manter sempre a calma ou encontrar as palavras certas. Também nós ficamos frustrados, cansados e, por vezes, reagimos de formas que não correspondem à relação que queremos construir. A segurança emocional não exige perfeição. Exige, sobretudo, que a relação não dependa de uma perfeição impossível (nem da parte da criança, nem da parte do adulto).
Talvez seja este uma das características mais importantes que um ambiente seguro tem: a relação conseguir suportar diferenças, frustrações e conflitos sem deixar de ser uma relação segura.
Como construímos ambientes emocionalmente seguros?
A segurança emocional não se cria através de uma frase específica nem depende de acertarmos sempre na forma como respondemos. Constrói-se no dia a dia, através da repetição de pequenas experiências que permitem à criança antecipar que será tratada com respeito mesmo quando aquilo que vive no momento é difícil e desconfortável. Em casa ou na escola, existem alguns elementos que ajudam a tornar essa segurança mais consistente.
Um dos mais importantes é a previsibilidade. As crianças sentem-se mais seguras quando conseguem compreender, de forma geral, o que podem esperar dos adultos. Isto não significa que todas as respostas tenham de ser iguais, mas que os limites não mudam radicalmente consoante o humor de quem os coloca e que um erro semelhante não provoca indiferença num dia e uma reação desproporcionada no seguinte. Quando as respostas dos adultos são relativamente consistentes, a criança não precisa de estar permanentemente a avaliar o ambiente antes de decidir se pode falar, perguntar ou pedir ajuda.
A escuta é outro elemento essencial. Escutar não significa concordar, resolver imediatamente ou encontrar a resposta perfeita. Muitas vezes significa simplesmente permitir que a criança termine aquilo que está a tentar dizer antes de lhe explicarmos o que deveria ter feito. Quando um filho chega a casa perturbado com um conflito ou um aluno diz que considera uma situação injusta, a nossa primeira reação pode ser corrigir a interpretação, relativizar o problema ou oferecer uma solução. No entanto, sentir que alguém está genuinamente interessado em compreender a nossa experiência torna mais provável que continuemos a partilhá-la.
Também a forma como recebemos as emoções difíceis transmite informação sobre aquilo que é seguro mostrar. Se a tristeza é rapidamente interrompida, a raiva censurada ou o medo ridicularizado, a criança pode começar a perceber que algumas emoções devem permanecer escondidas. Acolher uma emoção não exige concordar com a interpretação da criança nem permitir qualquer comportamento que resulte dela. Significa reconhecer que aquela experiência existe e que a relação consegue suportá-la.
O mesmo princípio aplica-se ao erro. Podemos dizer muitas vezes que “errar é aprender”, mas são as nossas reações aos erros reais que tornam essa mensagem credível. Um ambiente seguro permite corrigir, exigir e responsabilizar sem usar o erro para envergonhar. Quando existe espaço para perguntar “O que é que aconteceu?” antes de concluir “Como é que foste capaz?”, aumentamos a possibilidade de a criança olhar para aquilo que fez em vez de concentrar toda a sua energia em defender-se ou escondê-lo.
Como já vimos os limites respeitosos são igualmente parte desta construção. Segurança emocional não depende apenas de acolhimento; depende também de saber que existem adultos capazes de manter fronteiras sem recorrer ao medo como principal instrumento educativo. Uma regra pode ser firme sem ser humilhante, uma consequência pode existir sem retirar afeto e uma correção pode incidir sobre aquilo que aconteceu sem definir a criança a partir desse comportamento.
Por fim, existe um elemento particularmente importante porque nenhum adulto conseguirá garantir todos os anteriores em todos os momentos: a reparação. Pais e professores perdem a paciência, interpretam mal situações, dizem coisas de que se arrependem e, por vezes, são injustos. O que acontece depois também ensina. Um adulto que consegue regressar e dizer “Falei contigo de uma forma que não foi adequada”, “Não percebi bem o que tinha acontecido” ou “Estava zangado, mas não devia ter dito aquilo” mostra à criança que os conflitos não precisam de significar uma rutura definitiva.
Talvez seja precisamente esta combinação (previsibilidade, escuta, espaço para as emoções, possibilidade de errar, limites respeitosos e reparação) que transforma um ambiente num lugar emocionalmente seguro. Não porque nele tudo corre bem, mas porque, quando não corre, existem adultos capazes de lidar com aquilo que aconteceu.
E nenhuma destas práticas exige que os adultos estejam permanentemente calmos, disponíveis ou emocionalmente impecáveis. Exige antes uma intenção suficientemente consistente: criar relações em que a criança não precise de escolher entre ser honesta sobre aquilo que vive e preservar a ligação com os adultos de quem depende.
O adulto também faz parte do ambiente
Quando pensamos em criar ambientes emocionalmente seguros, é fácil concentrarmo-nos nas estratégias: nas palavras que devemos usar, na forma de colocar limites, nas perguntas que podemos fazer ou nas respostas que gostaríamos de dar. Mas a segurança emocional não depende apenas daquilo que o adulto diz. A criança está constantemente a interpretar muito mais do que as nossas palavras.
Percebe o tom de voz, a expressão facial, a postura, a disponibilidade para escutar e a forma como reagimos quando alguma coisa não corre como esperávamos. Aprende se é um bom momento para se aproximar, se pode trazer um problema ou se será melhor esperar. E, à medida que estas experiências se repetem, começa a construir expectativas sobre aquilo que provavelmente acontecerá quando precisar daquele adulto.
Isto coloca pais, professores e cuidadores numa posição importante, mas não deve transformar a segurança emocional numa nova exigência de perfeição. Nenhum adulto consegue estar permanentemente disponível, paciente e regulado. Há cansaço, preocupações, dias difíceis e situações em que reagimos antes de conseguirmos pensar na resposta que gostaríamos de dar. Um ambiente emocionalmente seguro não é aquele onde o adulto nunca se irrita, nunca levanta a voz ou nunca interpreta mal uma situação.
Aliás, se a segurança dependesse de relações sem falhas, seria praticamente impossível construí-la. O que importa é aquilo que fazemos com essas falhas. Quando um adulto reconhece que exagerou numa reação, pede desculpa por ter falado de forma desrespeitosa ou admite que tomou uma decisão sem ter toda a informação, não perde autoridade. Mostra que assumir responsabilidade também faz parte das relações. A criança descobre que alguém pode errar e continuar disponível para reparar aquilo que aconteceu.
Esta experiência é particularmente poderosa porque a segurança emocional não nasce da certeza de que nunca haverá conflito. Nasce também da confiança de que um conflito não precisa de destruir a relação. Podemos zangar-nos uns com os outros e voltar a aproximar-nos. Podemos dizer algo que magoa e procurar reparar. Podemos compreender mal uma situação e estar disponíveis para ouvir outra versão. A relação não precisa de ser frágil ao ponto de depender de nunca falharmos.
Há ainda uma dimensão menos visível: a forma como o adulto lida com as suas próprias emoções. As crianças aprendem muito sobre segurança observando o que fazemos quando estamos frustrados, tristes ou zangados. Se as emoções dos adultos se tornam imprevisíveis ou assustadoras, é natural que comecem a ajustar o seu comportamento para evitar determinadas reações. Pelo contrário, quando o adulto consegue reconhecer o que sente e assumir responsabilidade pela forma como age, transmite uma mensagem importante: as emoções podem ser intensas sem terem de dominar a relação.
Por isso, cuidar da segurança emocional das crianças também implica reconhecer os limites dos adultos. Descansar, pedir ajuda, afastar-se por alguns minutos quando é possível e necessário ou dizer “estou muito irritado e preciso de me acalmar antes de continuarmos esta conversa” não são sinais de incapacidade. Podem ser formas de proteger a relação e de mostrar, na prática, aquilo que queremos que as crianças aprendam sobre autorregulação.
Conclusão
Criar segurança emocional passa então por criarmos relações onde as experiências do dia a dia podem acontecer sem que a criança sinta que precisa de esconder aquilo que pensa, sente ou fez para continuar a ser aceite.
Essa segurança constrói-se devagar, nas pequenas interações diárias: quando escutamos antes de julgar, quando permitimos uma dúvida, quando corrigimos sem humilhar, quando mantemos um limite sem rejeitar a emoção que ele provoca e quando conseguimos regressar à relação depois de um momento difícil. Não depende de respostas perfeitas, mas da consistência com que mostramos à criança que há espaço para falar, perguntar, discordar, falhar e tentar novamente.
Em casa, na escola ou noutros contextos importantes da infância, sentir segurança dá à criança liberdade para explorar. Se não precisa de gastar tanta energia a proteger-se do erro, da crítica ou da rejeição, pode usá-la para aprender, criar relações, experimentar coisas novas e conhecer-se melhor.
Essa é a essência da segurança emocional: não retirar as dificuldades do caminho e, ao mesmo tempo, oferecer à criança relações suficientemente seguras para que não tenha de as enfrentar escondendo partes de si.
FAQ
O que é segurança emocional na infância?
Segurança emocional é a sensação de que a criança pode expressar aquilo que sente, pensa ou precisa sem recear humilhação, rejeição ou perda de afeto. Não significa que será sempre compreendida ou que os adultos concordarão com ela, mas que existe confiança suficiente na relação para poder mostrar dúvidas, erros, emoções e dificuldades.
Como posso ajudar uma criança a sentir-se emocionalmente segura?
A segurança emocional constrói-se sobretudo através das pequenas interações do quotidiano. Escutar antes de julgar, reagir aos erros com curiosidade, permitir a expressão de emoções difíceis, manter limites de forma respeitosa e reparar depois de um conflito são algumas das experiências que ajudam a criança a perceber que pode recorrer ao adulto mesmo quando aquilo que tem para contar é difícil.
Colocar limites pode fazer uma criança sentir-se menos segura?
Não. Limites claros e previsíveis podem, pelo contrário, contribuir para a sensação de segurança. A diferença está na forma como são estabelecidos. É possível manter um “não”, corrigir um comportamento ou aplicar uma consequência sem humilhar, ameaçar ou rejeitar a criança. Segurança emocional não significa ausência de frustração, mas permitir que a criança atravesse essa frustração dentro de uma relação respeitosa.
Porque é que a segurança emocional é importante para a aprendizagem?
Aprender implica correr pequenos riscos: admitir que não sabemos, fazer perguntas, experimentar, cometer erros e tentar novamente. Quando uma criança teme ser ridicularizada, envergonhada ou desvalorizada por errar, pode começar a evitar esses riscos. Um ambiente emocionalmente seguro facilita a participação, a curiosidade, o pedido de ajuda e a disponibilidade para continuar a tentar perante as dificuldades.
É possível reparar a segurança emocional depois de perdermos a paciência?
Sim. Uma relação emocionalmente segura não exige adultos perfeitos. Os conflitos e as falhas fazem parte das relações, e aquilo que acontece depois deles também é importante. Reconhecer que reagimos mal, assumir responsabilidade, pedir desculpa quando necessário e voltar a conversar mostra à criança que os erros podem ser reparados e que um momento difícil não precisa de colocar em causa a relação.





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