Validar não é concordar: um dos maiores equívocos da educação emocional

Validar não é concordar: um dos maiores equívocos da educação emocional

Uma criança chora porque não pode comer mais um chocolate antes do jantar. Outra grita porque está na hora de desligar a televisão. Outra ainda bate com a porta porque não concorda com uma decisão dos pais.

Nestes momentos, muitos adultos sentem-se divididos. Por um lado, ouvem cada vez mais mensagens sobre a importância de acolher emoções, validá-las e promover a inteligência emocional. Por outro, receiam que essa validação possa ser interpretada como permissividade. E surge uma dúvida muito comum: se eu validar a emoção da criança, não estarei a dizer que ela tem razão?

Esta é uma das maiores confusões quando falamos de educação emocional.

Talvez porque muitos de nós crescemos a acreditar que compreender uma emoção significava concordar com ela ou implicava aceitar qualquer comportamento que surgisse a partir disso. Mas compreender não é o mesmo que concordar. Reconhecer não é o mesmo que permitir. E validar não significa abdicar de limites.

Uma criança pode sentir-se profundamente zangada porque ouviu um "não". Pode sentir-se frustrada por não conseguir aquilo que queria. Pode sentir-se triste, desapontada ou injustiçada perante uma situação. O facto dessas emoções existirem não significa que a criança tenha razão sobre tudo o que pensa, nem que os adultos devam alterar os limites que consideram importantes.

Na verdade, uma das competências mais importantes da educação emocional é precisamente esta capacidade de distinguir emoções de comportamentos. As emoções são experiências internas que surgem naturalmente. Os comportamentos são as formas como escolhemos expressar ou agir impulsionados por essas emoções.

Podemos compreender a zanga sem aceitar a agressão. Podemos reconhecer a frustração sem retirar o limite. Podemos acolher a tristeza sem resolver imediatamente o problema.

E talvez este um dos maiores desafios da parentalidade e da educação: conseguir estar disponível para aquilo que a criança sente sem perder de vista aquilo que ela precisa de aprender.

Porque as emoções não são um problema para resolver nem um obstáculo ao desenvolvimento. São uma parte inevitável da experiência humana. E muitas vezes, aquilo de que as crianças precisam não é que concordemos com tudo o que sentem. É que lhes mostremos que aquilo que sentem pode existir sem colocar a relação e o afeto em risco.

 

O que é afinal validar uma emoção?

Apesar de ser uma expressão cada vez mais utilizada, a validação emocional continua a ser frequentemente mal compreendida. Muitas pessoas associam-na a concordar, ceder ou dizer à criança que tudo o que faz está certo. Mas validar uma emoção é algo bastante diferente.

Validar significa reconhecer que aquilo que a criança está a sentir é real para ela naquele momento. Significa mostrar que a sua experiência emocional foi vista, ouvida e compreendida, mesmo quando não concordamos com a forma como interpreta a situação ou com o comportamento que possa surgir a seguir.

Imagine uma criança que diz: "Isto é injusto." Validar não exige que o adulto concorde que a situação seja efetivamente injusta. Exige apenas que reconheça que a criança se sente injustiçada. Da mesma forma, quando uma criança fica zangada porque ouviu um "não", validar essa emoção não implica retirar o limite nem mudar a decisão tomada. Implica reconhecer que a zanga existe e que faz sentido à luz daquilo que a criança desejava ou esperava.

Esta distinção é importante porque as emoções não precisam da nossa autorização para existir. Elas surgem naturalmente em resposta às experiências que vivemos, às necessidades que sentimos, às expectativas que criamos e à forma como interpretamos aquilo que acontece à nossa volta. Uma criança não escolhe sentir tristeza quando perde algo importante, nem escolhe sentir medo perante uma situação desconhecida ou frustração quando algo não corre como imaginava.

Aquilo que pode aprender, com o apoio dos adultos, é a relacionar-se com essas emoções de forma mais saudável.

Quando validamos uma emoção, estamos a transmitir uma mensagem simples mas profundamente reguladora: "Eu consigo perceber que te sintas assim". Esta mensagem não elimina automaticamente a tristeza, a raiva ou a frustração. Mas cria algo fundamental: a sensação de que aquilo que está a ser vivido pode ser partilhado e compreendido.

E isso faz diferença. Porque antes de uma criança conseguir regular uma emoção, precisa muitas vezes de sentir que essa emoção foi reconhecida.

Validar não significa aumentar o sofrimento, incentivar a vitimização ou concordar com tudo aquilo que a criança pensa. Significa criar uma ponte entre aquilo que está a acontecer no seu mundo interno e a relação com o adulto que a acompanha.

 

Porque é que as emoções não precisam de autorização para existir

Uma das razões pelas quais a validação emocional é tantas vezes mal compreendida prende-se com a ideia de que algumas emoções são mais aceitáveis do que outras. A alegria tende a ser bem-vinda. A gratidão é valorizada. A calma é frequentemente desejada. Já a raiva, a inveja, o ciúme, a vergonha, a frustração ou a tristeza costumam gerar mais desconforto, tanto nas crianças como nos adultos que as acompanham.

No entanto, as emoções não surgem porque as escolhemos. Surgem porque são parte da forma como os seres humanos interpretam e respondem ao mundo.

Uma criança pode sentir ciúmes quando nasce um irmão. Pode sentir inveja de um colega. Pode ficar zangada quando perde um jogo ou profundamente frustrada quando algo não corre como esperava. Estas emoções não significam que a criança seja egoísta, mal-educada ou problemática. Significam apenas que está a viver uma experiência emocional humana.

O problema começa quando tentamos discutir a legitimidade da emoção em vez de ajudar a criança a compreendê-la.

Frases como "não tens motivo para estar triste", "isso não é razão para ficares zangado" ou "não devias sentir-te assim" costumam surgir com boas intenções. Muitas vezes, os adultos procuram tranquilizar ou ajudar a criança a sentir-se melhor. Mas a mensagem que pode ser recebida é diferente: aquilo que sinto não faz sentido, não é importante ou não deveria existir.

Quando isso acontece repetidamente, algumas crianças começam a afastar-se da própria experiência emocional. Em vez de aprenderem a reconhecer o que sentem, aprendem a questionar se têm o direito de sentir.

Mas as emoções não funcionam dessa forma.

Podemos ajudar uma criança a refletir sobre os seus pensamentos. Podemos ajudá-la a encontrar outras perspetivas. Podemos orientá-la na escolha dos seus comportamentos. O que não podemos fazer é decidir por ela aquilo que deveria ou não sentir.

Aliás, uma das bases da inteligência emocional passa precisamente por reconhecer que todas as emoções transportam informação. Nem sempre essa informação está correta. Nem sempre a interpretação que fazemos da situação corresponde à realidade. Mas a emoção existe e merece ser compreendida antes de ser transformada.

Quando uma criança sente que aquilo que vive internamente é recebido com curiosidade em vez de julgamento, torna-se mais disponível para explorar a própria experiência emocional. E é precisamente essa exploração que abre caminho à autorregulação, à reflexão e ao crescimento emocional.

 

O que acontece quando as emoções são invalidadas?

As emoções não desaparecem porque alguém nos diz que não deveríamos senti-las.

No entanto, muitas crianças crescem a ouvir mensagens como "não é nada", "não chores", "isso passa", "estás a exagerar" ou "não tens razões para te sentires assim". Na maioria das vezes, estas frases até são ditas com boas intenções. Os adultos procuram tranquilizar, relativizar ou proteger a criança do sofrimento. Mas o impacto pode ser diferente daquele que imaginam.

Quando uma emoção é repetidamente invalidada, a criança não aprende necessariamente a sentir menos. Aprende, muitas vezes, a afastar-se daquilo que sente.

Ao longo do desenvolvimento, esta tendência pode dificultar a evolução da autoconsciência emocional, uma das competências fundamentais da inteligência emocional. Se aquilo que sinto é constantemente desvalorizado ou corrigido, torna-se mais difícil reconhecer, nomear e compreender as minhas próprias experiências internas.

O trabalho do psicólogo John Gottman, conhecido pelos seus estudos sobre socialização emocional, mostrou que crianças cujas emoções são sistematicamente ignoradas ou minimizadas tendem a apresentar mais dificuldades na regulação emocional, nas relações interpessoais e na gestão do stress. Pelo contrário, crianças que crescem em ambientes onde as emoções são reconhecidas e acompanhadas desenvolvem maiores competências emocionais e sociais.

A invalidação emocional pode também contribuir para aquilo que alguns investigadores designam por evitamento emocional: a tendência para suprimir, esconder ou afastar emoções consideradas desconfortáveis. O problema é que emoções evitadas não desaparecem. Muitas vezes continuam presentes, manifestando-se através de irritabilidade, ansiedade, comportamentos impulsivos ou dificuldades relacionais.

As investigações de Susan David, psicóloga da Harvard Medical School, apontam precisamente para os custos da supressão emocional. Quando as pessoas aprendem a rejeitar ou negar determinadas emoções, tendem a apresentar menor flexibilidade psicológica e mais dificuldades a lidar com situações adversas.

Existe ainda outro risco menos evidente. Quando as emoções são frequentemente invalidadas, algumas crianças começam a procurar no exterior aquilo que não conseguem construir internamente: confirmação constante de que aquilo que sentem é legítimo. Em vez de desenvolverem confiança na sua experiência emocional, passam a depender da validação dos outros para interpretar aquilo que se passa dentro delas.

Isto não significa que os adultos tenham de concordar com tudo o que a criança sente ou pensa. Significa apenas que reconhecer uma emoção é o primeiro passo para que ela possa ser compreendida, integrada e regulada de forma saudável.

Quando as emoções encontram espaço para existir, as crianças aprendem gradualmente a relacionar-se com elas. Quando encontram apenas julgamento ou negação, aprendem muitas vezes a afastar-se de uma parte importante de si próprias.

 

É possível validar e manter limites ao mesmo tempo

Uma das maiores dificuldades dos adultos relativamente à validação emocional surge precisamente aqui: o receio de que reconhecer uma emoção signifique ceder ao comportamento que a acompanha. Mas validar e estabelecer limites não são ações opostas. Na verdade, são competências complementares.

Uma criança pode sentir-se profundamente zangada porque não pode continuar a jogar. Pode ficar frustrada porque ouviu um "não". Pode sentir-se injustiçada porque uma regra a impede de fazer aquilo que queria. Todas essas emoções são legítimas. O facto de serem legítimas não significa que a criança possa fazer tudo aquilo que lhe apetece para as expressar.

É aqui que se torna útil distinguir emoção de comportamento.

As emoções são experiências internas, automáticas e involuntárias. Os comportamentos são as ações que escolhemos em resposta a essas emoções. Uma criança não escolhe sentir raiva quando perde um jogo. Mas pode aprender, gradualmente, com tempo e treino, diferentes formas de lidar com essa raiva.

Quando um adulto diz: "Percebo que estejas muito zangado porque querias continuar a brincar. E mesmo assim está na hora de desligar." está simultaneamente a validar a emoção e a manter o limite.

Da mesma forma, quando diz: "Vejo que estás frustrado. Mas não vou deixar que batas." está a reconhecer aquilo que a criança sente sem aceitar o comportamento agressivo.

Este equilíbrio é particularmente importante porque as crianças precisam de ambas as coisas: compreensão emocional e orientação comportamental. O psiquiatra Daniel Siegel descreve frequentemente esta ideia através da expressão "connect and redirect": primeiro estabelecer ligação, depois orientar. Quando a criança se sente compreendida, o sistema nervoso tende a reduzir o estado de alerta. Só depois dessa ligação emocional é que se torna mais fácil refletir, cooperar e encontrar alternativas de comportamento.

Também a investigação sobre vinculação tem mostrado que os contextos mais seguros para o desenvolvimento infantil não são aqueles onde existe apenas afeto nem aqueles onde existem apenas regras. São aqueles onde coexistem calor emocional e estrutura. A criança sente-se aceite enquanto pessoa, mesmo quando determinados comportamentos são corrigidos ou limitados.

Por vezes, os adultos receiam que a validação enfraqueça a autoridade. Mas acontece frequentemente o contrário. Quando uma criança sente que aquilo que vive internamente é compreendido, tende a mostrar menos necessidade de lutar para provar que a sua emoção existe. O conflito diminui porque a relação permanece segura, mesmo perante a frustração.

Talvez um dos maiores equívocos da educação emocional seja pensar que temos de escolher entre empatia e firmeza. Na realidade, as crianças precisam das duas. Precisam de adultos capazes de dizer: "Eu percebo o que estás a sentir." e, ao mesmo tempo "O limite mantém-se."

A validação não retira a necessidade de limites. Torna-os mais fáceis de compreender e aceitar porque são transmitidos dentro de uma relação onde a criança se sente vista, respeitada e emocionalmente segura.

 

Porque é que validar pode ser tão difícil para os adultos

Se a validação emocional parece um conceito relativamente simples na teoria, porque é que tantas vezes se torna difícil colocá-la em prática? A resposta nem sempre está na criança. Muitas vezes está na história emocional do próprio adulto.

Grande parte dos pais, professores e educadores de hoje cresceu numa época em que as emoções raramente eram tema de conversa. As intenções eram boas, mas a prioridade era frequentemente ensinar a ser forte, resiliente e capaz de seguir em frente. Frases como "não chores", "isso passa", "não ligues a isso" ou "não faças um drama" faziam parte do quotidiano de muitas famílias e escolas.

O resultado não foi necessariamente a ausência de emoções. Foi, muitas vezes, a ausência de linguagem para compreender essas emoções. Se ninguém nos ensinou a identificar, nomear e acolher aquilo que sentimos, é natural que tenhamos mais dificuldade em fazê-lo com as crianças.

Por isso, quando um filho chega a casa profundamente zangado por causa de um conflito com um amigo, ou quando uma criança chora intensamente por algo que aos olhos do adulto parece insignificante, o desconforto que sentimos nem sempre está relacionado apenas com a situação presente. Muitas vezes, ativa também memórias, crenças e experiências emocionais que carregamos connosco há muitos anos.

É por isso que algumas emoções infantis tendem a ser particularmente difíceis de acompanhar. A raiva, por exemplo, pode ser desconfortável para adultos que aprenderam a reprimi-la. A tristeza pode ser difícil para quem cresceu a acreditar que demonstrar vulnerabilidade era um sinal de fraqueza. A ansiedade de uma criança pode despertar a própria ansiedade do adulto.

Nestes momentos, a tentação de resolver rapidamente a emoção torna-se muito grande. Queremos que a criança pare de chorar, que deixe de estar zangada ou que recupere a calma o mais depressa possível. Não necessariamente porque a emoção seja um problema para ela, mas porque também se tornou difícil para nós.

Este fenómeno é bem conhecido na investigação sobre co-regulação emocional. A capacidade de ajudar uma criança a regular-se está profundamente ligada à nossa própria capacidade de permanecer presentes perante emoções intensas. Quando o adulto se sente sobrecarregado ou ameaçado pela emoção da criança, torna-se mais difícil oferecer a segurança emocional de que ela necessita naquele momento.

Talvez por isso a validação emocional não seja apenas uma competência parental ou educativa. É também um exercício de autoconhecimento. Quanto mais capazes somos de reconhecer e aceitar as nossas próprias emoções, maior tende a ser a nossa disponibilidade para acolher as emoções das crianças sem as corrigir, minimizar ou apressar.

E esta é uma ideia importante: validar uma emoção não significa ter sempre a resposta certa. Não exige perfeição. Não exige uma linguagem sofisticada nem uma reação exemplar em todos os momentos. Exige, acima de tudo, disponibilidade para estar presente. Para ouvir antes de corrigir. Para compreender antes de resolver. Para reconhecer a experiência emocional da criança, mesmo quando ela é diferente da nossa.

 

Validar emoções também não significa fazê-las desaparecer

Existe uma expectativa implícita que acompanha muitas conversas sobre educação emocional: a ideia de que, se respondermos da forma certa, a criança deixará rapidamente de estar triste, zangada ou frustrada.

Mas a validação emocional não tem como objetivo eliminar emoções. Tem como objetivo ajudar a criança a atravessá-las.

Esta diferença é importante porque, muitas vezes, os adultos avaliam a eficácia da sua resposta em função da rapidez com que a emoção desaparece. Se a criança continua a chorar, continua zangada ou continua frustrada, surge facilmente a sensação de que algo não resultou.

No entanto, as emoções não são problemas para resolver. São experiências para viver, compreender e integrar.

Quando uma criança cai e magoa o joelho, ninguém espera que a dor desapareça instantaneamente porque um adulto lhe disse que compreende o que aconteceu. Com as emoções acontece algo semelhante. O facto de uma emoção ser validada não significa que desapareça de imediato. Significa apenas que a criança deixa de ter de lidar sozinha com ela.

Esta ideia é particularmente relevante numa sociedade que valoriza cada vez mais o conforto imediato. Muitas vezes sentimos pressão para encontrar rapidamente uma solução, uma distração ou uma estratégia que faça desaparecer o desconforto. No entanto, uma parte importante do desenvolvimento emocional passa precisamente por aprender que algumas emoções precisam de tempo.

A tristeza precisa de tempo.

A desilusão precisa de tempo.

A frustração precisa de tempo.

E, sobretudo, precisam de espaço.

Quando os adultos tentam acelerar demasiado este processo, correm o risco de transmitir uma mensagem involuntária: a de que certas emoções são indesejáveis e devem desaparecer o mais rapidamente possível. Mas as crianças não precisam de aprender a fugir das emoções difíceis. Precisam de aprender que conseguem sobreviver-lhes. Precisam de descobrir que a tristeza não dura para sempre, que a frustração pode ser tolerada, que a zanga pode ser compreendida e que o medo pode ser enfrentado. E essa aprendizagem acontece através da experiência repetida de sentir uma emoção e perceber que ela pode ser vivida em segurança.

Neste sentido, validar não faz ultrapassar a emoção mais depressa. Ajuda a criança a desenvolver recursos para estar com ela durante o tempo que for preciso.

Talvez seja por isso que a validação emocional está tão próxima da co-regulação. Antes de ensinar estratégias, antes de procurar soluções ou antes de corrigir comportamentos, existe um momento fundamental de presença e ligação. Um momento em que o adulto comunica, através das palavras, do tom de voz ou simplesmente da sua disponibilidade: "Aquilo que estás a sentir é difícil. E eu estou aqui contigo". Muitas vezes, não é a ausência de emoções difíceis que fortalece as crianças. É a experiência de as atravessar acompanhadas.

 

O que as crianças realmente aprendem quando se sentem compreendidas

Quando falamos sobre validação emocional, é fácil pensar apenas no momento presente. Na criança que está a chorar, no conflito que precisa de ser resolvido ou na birra que está a acontecer diante de nós. Mas os efeitos da validação vão muito além dessa situação concreta.

Sempre que uma criança encontra um adulto capaz de reconhecer aquilo que sente, está a construir aprendizagens que irão acompanhar a forma como se relaciona consigo própria e com os outros ao longo da vida.

Aprende, por exemplo, que as emoções não são algo de que precise de ter vergonha. Aprende que pode falar sobre aquilo que sente sem receio de perder a ligação com as pessoas importantes para si. Aprende que a tristeza, a zanga ou o medo não a tornam menos capaz, menos forte ou menos merecedora de afeto.

Estas aprendizagens podem parecer simples, mas têm um impacto profundo na construção da identidade. Ao longo da infância, as crianças vão formando crenças sobre quem são e sobre o seu valor. E essas crenças não surgem apenas a partir dos elogios que recebem ou dos resultados que alcançam. Surgem também da forma como os adultos respondem às suas experiências mais vulneráveis.

Quando uma criança é repetidamente recebida com curiosidade, empatia e disponibilidade emocional, tende a desenvolver uma relação mais segura consigo própria. Aprende a confiar naquilo que sente, a reconhecer os seus estados internos e a procurar ajuda quando precisa.

Por outro lado, quando as emoções são constantemente minimizadas, ignoradas ou criticadas, a mensagem que pode ficar não é apenas sobre a emoção em si. Pode tornar-se uma mensagem sobre a própria criança: aquilo que sinto não é importante, sou demasiado sensível, estou sempre a exagerar.

É precisamente por isso que a validação emocional não deve ser confundida com uma técnica de comunicação. Trata-se, acima de tudo, de uma forma de relação. Uma relação onde existe espaço para a experiência emocional da criança sem julgamento imediato. Onde o objetivo não é corrigir aquilo que sente, mas ajudá-la a compreender-se melhor.

Paradoxalmente, é esta sensação de compreensão que cria as condições necessárias para a mudança. Porque as crianças tornam-se mais disponíveis para refletir sobre os seus comportamentos, considerar outras perspetivas e encontrar soluções quando não estão ocupadas a defender o direito de sentir aquilo que sentem.

No fundo, validar não significa dizer à criança que tudo está certo. Significa dizer-lhe que continua a ser digna de compreensão, respeito e ligação, mesmo nos momentos em que está triste, zangada, frustrada ou assustada. E talvez essa seja uma das mensagens mais relevantes que qualquer criança pode receber: “aquilo que sentes não te afasta de mim, eu continuo aqui.”

 

Conclusão

As emoções não precisam de ser corrigidas para poderem ser acompanhadas.

Durante muito tempo, muitos de nós aprendemos a responder às emoções com explicações, distrações ou tentativas de as fazer desaparecer. Mas compreender uma emoção não é o mesmo que resolver um problema. E validar não significa concordar, ceder ou permitir tudo.

Significa reconhecer que existe uma experiência emocional que merece ser vista.

As crianças precisam de limites. Precisam de orientação. Precisam de aprender que nem todos os comportamentos são aceitáveis. Mas precisam também de saber que aquilo que sentem pode existir sem ser ignorado, ridicularizado ou colocado em causa.

Quando uma criança se sente compreendida, não aprende apenas sobre emoções. Aprende algo mais profundo: que pode recorrer aos outros quando está em dificuldade, que não precisa de esconder aquilo que sente e que a relação permanece segura mesmo nos momentos mais desafiantes.

Validar uma emoção não é dizer "tens razão". É dizer "eu estou contigo enquanto procuramos o que fazer com isso".

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