Falar de saúde mental em crianças e adolescentes ainda assusta muitas famílias. Para muitos pais, a ideia de procurar apoio psicológico para um filho vem acompanhada de uma sensação silenciosa de falhanço. Como se pedir ajuda significasse “não fui capaz”, “não fiz bem”, “algo correu mal comigo”. Esta crença é muito comum. E profundamente injusta.
A parentalidade envolve amor, medo, culpa e uma enorme responsabilidade. Quando uma criança ou adolescente sofre, é natural que os pais se questionem. Mas a psicologia mostra algo fundamental: o desenvolvimento emocional de uma criança nunca depende de um único adulto. Ele é moldado pelo temperamento, pelas experiências, pela escola, pelas relações com os pares e pelo contexto em que cresce. Pedir ajuda não significa que algo falhou. Significa que alguém está a cuidar.
Na verdade, os pais que procuram apoio especializado estão muitas vezes a fazer exatamente o oposto do falhanço. Estão a dizer: “o meu filho importa demasiado para eu ignorar isto”. Estão a criar uma rede de suporte em torno da criança, e isso é uma das formas mais fortes de amor.
A psicoterapia não é apenas um recurso para momentos extremos. Cada vez mais é vista como um espaço de prevenção, crescimento e aprendizagem emocional. Tal como levamos uma criança ao médico para acompanhar o seu desenvolvimento físico, também faz sentido recorrer a um profissional para apoiar o seu desenvolvimento mental e emocional.
É neste contexto que a saúde mental deixa de ser um tema distante ou assustador e passa a ser parte natural do cuidar. E é também aqui que ferramentas que respeitam a linguagem emocional da infância e da adolescência, como um jogo, ganham um papel tão importante.
O que a ciência nos diz sobre saúde mental na infância e adolescência
Durante a infância e, sobretudo, durante a adolescência, o cérebro está em plena construção. Emoções, impulsos, relações e identidade estão a organizar-se ao mesmo tempo, o que torna estas fases particularmente sensíveis ao stress, à rejeição e à insegurança. Não porque haja algo de errado, mas porque o sistema nervoso ainda está a aprender a regular-se num mundo cada vez mais exigente.
A neurociência mostra que o cérebro jovem é altamente plástico, ou seja, tem uma enorme capacidade de aprender, adaptar-se e mudar. Investigadores como Daniel Siegel e Bruce Perry demonstram que experiências de segurança, vínculo e apoio emocional moldam diretamente a forma como o cérebro se organiza. Quando uma criança se sente vista, compreendida e acompanhada, desenvolve circuitos cerebrais mais estáveis para lidar com frustração, medo e stress.
Quando um jovem recebe apoio emocional adequado, o cérebro aprende novas formas de responder às dificuldades. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, pedir ajuda cedo não cria dependência, cria competências. Ajuda a desenvolver regulação emocional, autoconsciência e capacidade de pedir apoio, habilidades que o acompanham ao longo da vida.
Por isso, olhar para a saúde mental como parte do desenvolvimento e não como um sinal de falha, é fundamental. O que acontece nestas fases deixa marcas profundas na forma como uma pessoa vai sentir, relacionar-se e lidar com o mundo no futuro.
Porque falar de saúde mental cedo faz tanta diferença
Nos últimos anos, os números tornaram-se difíceis de ignorar. A Organização Mundial de Saúde estima que uma em cada sete crianças e adolescentes no mundo vive com algum problema de saúde mental. A ansiedade, a depressão e as dificuldades de regulação emocional estão a surgir cada vez mais cedo, muitas vezes antes dos 14 anos. Em Portugal, os dados apontam para um aumento significativo de sintomas de ansiedade, tristeza persistente e dificuldades de comportamento em idade escolar.
Mas estes números não contam a história toda. Por detrás deles estão crianças que não conseguem explicar o que sentem, adolescentes que sentem “demasiado” ou que se julgam “insuficientes”, e famílias que muitas vezes não sabem como ajudar. A ciência mostra que a maioria dos problemas de saúde mental na vida adulta começa na infância e na adolescência, quando o cérebro ainda está a aprender a lidar com emoções, stress e relações.
É por isso que a prevenção é tão poderosa. Ensinar uma criança a reconhecer emoções, a falar sobre o que sente e a pedir ajuda não é um luxo. É uma forma de proteção! Investigadores como Daniel Goleman e Peter Fonagy mostram que competências como consciência emocional, empatia e regulação são fatores de proteção contra ansiedade, depressão e comportamentos de risco.
Quando falamos de educação emocional, não estamos a tentar evitar que as crianças sintam dor, frustração ou tristeza. Estamos a dar-lhes ferramentas para atravessar essas experiências sem se sentirem engolidos por elas. Quanto mais cedo estas competências são desenvolvidas, mais resiliente e equilibrado tende a ser o adulto que essa criança se tornará.
Neste sentido, a saúde mental não começa numa consulta, começa nas conversas, nos jogos, nas relações e na forma como ensinamos uma criança a olhar para o seu mundo interior.
O papel do psicólogo: mais do que “resolver problemas”
Quando pensamos em psicologia infantil ou juvenil, é comum imaginarmos alguém que entra em cena apenas quando algo está “muito mal”. Mas, na realidade, o trabalho do psicólogo vai muito além de corrigir comportamentos ou aliviar sintomas. Ele cria um espaço onde a criança ou o adolescente pode ser visto, ouvido e compreendido sem medo de julgamento.
A investigação em psicologia clínica mostra que um dos fatores mais importantes para o sucesso da terapia é a chamada aliança terapêutica: a relação de confiança entre o jovem e o profissional. Quando um adolescente sente que pode falar livremente, errar, chorar ou ficar em silêncio sem ser criticado, o seu sistema nervoso começa a relaxar. E é nesse estado de segurança que o verdadeiro trabalho emocional acontece.
Para os pais, o psicólogo não deve ser visto como alguém que aponta falhas, mas sim como um aliado que ajuda a compreender melhor o que o filho está a viver. Muitas vezes, pequenas mudanças na forma de comunicar, estabelecer limites ou responder às emoções fazem uma grande diferença. A terapia torna-se, assim, um espaço de aprendizagem não só para o jovem, mas também para toda a família.
Ao longo do tempo, este acompanhamento ajuda a criança ou o adolescente a desenvolver algo essencial: a capacidade de reconhecer o que sente, dar significado às suas experiências e encontrar formas mais saudáveis de lidar com as dificuldades. Não se trata de apagar emoções difíceis, mas de aprender a viver com elas de forma mais equilibrada e consciente.
O poder do brincar como espaço terapêutico
Crianças e adolescentes nem sempre conseguem traduzir em palavras aquilo que sentem. Muitas emoções são confusas, intensas ou difíceis de nomear, especialmente quando envolvem medo, vergonha, tristeza ou raiva. É por isso que, em psicologia infantil e juvenil, o brincar é visto como uma das formas mais naturais de comunicação emocional.
Autores como Virginia Axline e Garry Landreth, referências na terapia centrada na criança, mostraram que o jogo permite que o mundo interno se manifeste de forma simbólica e segura. Ao brincar, imaginar, responder a perguntas ou representar situações, o jovem pode expressar experiências que talvez não conseguisse dizer diretamente.
Dentro desse espírito, ferramentas lúdicas e estruturadas (como jogos de cartas emocionais, por exemplo) ajudam a criar um enquadramento onde a partilha se torna mais fácil e menos ameaçadora. Em vez de perguntar “o que é que sentes?”, que pode ser difícil de responder, o jogo convida à reflexão de uma forma indireta, mas profunda.
Algumas das razões pelas quais o jogo funciona tão bem em contexto terapêutico incluem:
- cria uma distância segura entre a emoção e a pessoa
- reduz a pressão de “ter que falar”
- facilita a expressão simbólica
- promove ligação e confiança
- torna o processo mais leve e envolvente
É neste espaço que jogos como o Sabes Quem Tu És? podem ser usados por psicólogos e famílias como uma ferramenta de apoio ao diálogo emocional. Não como substituto da terapia, mas como um meio de abrir conversas, explorar relações e ajudar crianças e adolescentes a reconhecer e partilhar o que sentem.
Quando o brincar entra no processo terapêutico, algo importante acontece: a emoção deixa de ser apenas um problema a resolver e passa a ser uma experiência que pode ser compreendida, sentida e transformada.
Cuidar da mente é cuidar das relações
A saúde mental de crianças e adolescentes não se constrói num único lugar nem com uma única pessoa. Ela desenvolve-se na forma como os pais escutam, nos limites e na segurança que os professores oferecem, e no espaço de compreensão que a terapia proporciona. A inteligência emocional (a capacidade de reconhecer, compreender e lidar com as próprias emoções) pode ser ensinada e aprendida em todos estes contextos.
Quando uma criança sente que pode falar do que sente em casa, quando encontra na escola adultos que a veem para além do comportamento e quando tem acesso a um espaço terapêutico que a ajuda a dar sentido ao que vive, cria-se uma rede de cuidado que fortalece o seu mundo interior. Não é sobre evitar dificuldades, mas sobre aprender a atravessá-las com mais apoio, consciência e ferramentas.
Pedir ajuda, brincar, conversar, refletir, tudo isso faz parte de um mesmo processo: o de ajudar um jovem a crescer com mais equilíbrio, mais segurança e mais ligação aos outros. E é nesse caminho partilhado entre família, escola e terapia que a verdadeira educação emocional acontece.




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