Porque os professores são essenciais para o desenvolvimento emocional dos adolescentes

Porque os professores são essenciais para o desenvolvimento emocional dos adolescentes

Numa sala de aula de adolescentes, nem sempre o que mais pesa é o que está escrito no quadro. Às vezes é o aluno que entra calado e se senta no fundo da sala, o que reage com irritação quando é chamado à atenção ou o que desiste rapidamente porque acredita que “não é bom nisto”. Para quem ensina, estes comportamentos podem parecer falta de interesse ou de disciplina. Para a psicologia do desenvolvimento, são muitas vezes sinais de um mundo emocional em construção.

A adolescência é uma fase em que o jovem está a tentar responder a uma pergunta fundamental: Quem sou eu? Segundo Erik Erikson, este período é marcado pelo conflito entre identidade e confusão de papéis. O adolescente observa-se, compara-se com os outros, testa limites e procura sinais externos que lhe digam quem é e quanto vale. E alguns desses sinais vêm, todos os dias, dos adultos que o rodeiam, nomeadamente dos professores.

Na escola, o professor não é apenas alguém que dá aulas, avalia trabalhos e atribui notas. É uma das figuras adultas que mais tempo passa com o adolescente fora da família. Estudos em psicologia educacional mostram que os jovens são extremamente sensíveis à forma como os professores os veem: um comentário de encorajamento, um olhar de desaprovação ou uma expectativa elevada podem ter um impacto profundo na autoestima e na motivação. Em muitos casos, o professor torna-se uma espécie de espelho onde o aluno aprende a ver-se.

 

Um cérebro em construção dentro da sala de aula

Durante a adolescência, o cérebro passa por uma das maiores reorganizações desde a infância. As áreas ligadas às emoções, à motivação e à perceção social desenvolvem-se mais rapidamente do que o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrolo, pela tomada de decisões e pela capacidade de colocar as coisas em perspetiva. Isto cria um período em que o jovem sente tudo com grande intensidade, mas ainda não dispõe plenamente das ferramentas internas para regular essas emoções.

Investigadores como Laurence Steinberg mostram que, nesta fase, o cérebro adolescente é especialmente sensível à avaliação dos outros, à rejeição e ao sentimento de pertença. É por isso que, muitas vezes, uma frase dita em sala de aula, como “tu consegues”, “espero mais de ti” ou “isso não está ao teu nível”, fica gravada muito para além do momento. Para um adolescente, não é apenas um feedback sobre o seu desempenho escolar, é informação emocional sobre quem ele é.

Neste contexto, o professor não é apenas alguém que ensina conteúdos. É uma presença que, todos os dias, ajuda a moldar a forma como o adolescente se vê, se sente e se posiciona no mundo. E é a partir desta realidade que o papel do professor na inteligência emocional se torna tão essencial.

 

Porque é que o professor é uma figura emocional chave

Durante a adolescência, os jovens passam mais tempo na escola do que em quase qualquer outro contexto fora de casa. Ao longo de semanas, meses e anos, os professores tornam-se figuras constantes na vida dos alunos e essa continuidade cria algo muito poderoso: uma relação de referência. Mesmo quando não é explícito, o adolescente observa como o professor o olha, como lhe fala, como reage aos seus erros e aos seus sucessos. É através desse olhar que muitos jovens começam a formar a perceção de quem são.

A psicologia do desenvolvimento e a teoria do apego mostram que relações seguras com adultos significativos ajudam os jovens a desenvolver autoestima, autorregulação emocional e confiança. Embora os professores não substituam os pais, eles desempenham um papel semelhante no contexto escolar proque oferecem previsibilidade, limites e, sobretudo, reconhecimento. Um professor que demonstra interesse genuíno, que escuta e que acredita no potencial do aluno cria um ambiente emocionalmente seguro. E a segurança é a base de qualquer aprendizagem profunda.

Estudos em psicologia educacional indicam que alunos que se sentem apoiados pelos seus professores apresentam níveis mais elevados de motivação, envolvimento e bem-estar. Um simples gesto de encorajamento, uma expectativa positiva ou um comentário que reconheça o esforço pode mudar a forma como um jovem se vê. Para um adolescente que duvida de si próprio, ouvir “sei que consegues” pode ser o primeiro passo para tentar.

Este impacto vai muito para além das notas. Quando um professor valida as emoções de um aluno (por exemplo, reconhecendo que algo foi difícil ou frustrante) ajuda-o a aprender que sentir não é errado e que pode lidar com o que sente. Isso fortalece a inteligência emocional, ensinando o adolescente a reconhecer, nomear e regular as suas emoções.

Ao longo do tempo, estas pequenas interações constroem algo ainda maior: uma narrativa interna mais positiva. O aluno deixa de se ver apenas pelos seus erros e passa a reconhecer também as suas capacidades, os seus progressos e o seu valor. Assim, o professor torna-se não apenas um transmissor de conhecimento, mas um dos adultos que ajudam o adolescente a tornar-se uma pessoa mais segura, mais confiante e mais preparada para a vida.

 

Inteligência emocional como base da aprendizagem

Aprender não é apenas um processo intelectual. É também profundamente emocional. Para um adolescente conseguir concentrar-se, participar, errar e tentar de novo, precisa de sentir-se suficientemente seguro, respeitado e aceite no ambiente onde aprende. Quando um aluno está dominado por ansiedade, vergonha ou medo de falhar, o cérebro entra em modo de proteção e isso reduz a capacidade de atenção, memória e raciocínio.

A neurociência mostra que emoções como stress e ameaça ativam sistemas cerebrais que competem diretamente com os circuitos da aprendizagem. Por outro lado, quando o aluno se sente apoiado e compreendido, o cérebro liberta neurotransmissores ligados à motivação, à curiosidade e à abertura ao novo. Isto cria um estado interno mais favorável para aprender. É por isso que ambientes emocionalmente seguros produzem não só mais bem-estar, mas também melhores resultados académicos.

A inteligência emocional — a capacidade de reconhecer, compreender e regular emoções — ajuda os adolescentes a lidar com frustrações, conflitos e pressão social, tão comuns nesta fase da vida. Aqueles que desenvolvem estas competências conseguem persistir mais perante dificuldades, pedir ajuda quando precisam e relacionar-se melhor com colegas e professores. Investigadores como Marc Brackett, que estuda educação emocional, mostram que programas de aprendizagem socioemocional estão associados a melhorias no comportamento, na motivação e no desempenho escolar.

Quando os professores integram a dimensão emocional no dia-a-dia da sala de aula, estão a criar as condições para que os alunos aprendam não apenas mais, mas melhor. Ensinar conteúdos num contexto de respeito, empatia e compreensão ajuda o adolescente a sentir que pertence, que é capaz e que o esforço vale a pena, três pilares fundamentais para qualquer aprendizagem significativa.

 

O que um professor pode realmente fazer

A inteligência emocional não é algo que se desenvolve apenas em contextos terapêuticos. Ela constrói-se todos os dias, nas relações, nas interações e na forma como os adultos respondem às emoções dos jovens. Dentro da escola, os professores estão numa posição privilegiada para influenciar esse desenvolvimento, através da forma como comunicam, orientam e criam o clima da sala de aula.

Pequenas atitudes repetidas ao longo do tempo podem criar um ambiente onde os alunos se sentem mais seguros para aprender, errar e crescer. A investigação em psicologia educacional mostra que a forma como o professor comunica, corrige e reage aos alunos influencia diretamente a sua motivação, a sua autoestima e a sua relação com a aprendizagem.

Algumas orientações simples podem fazer toda a diferença:

  • Usar uma linguagem respeitosa e clara
    A forma como um professor se dirige a um aluno transmite se ele é visto como alguém digno de respeito e consideração.
  • Validar emoções sem justificar comportamentos
    Dizer “percebo que isto foi frustrante” ajuda o jovem a sentir-se compreendido, mesmo quando é necessário corrigir.
  • Tratar o erro como parte do processo
    Ao normalizar falhas e focar-se no esforço e no progresso, o professor ajuda a desenvolver uma mentalidade de crescimento, como demonstrado por Carol Dweck.
  • Criar pequenos espaços de escuta
    Momentos em que os alunos podem expressar o que sentem promovem empatia, autorregulação e relações mais saudáveis dentro da turma.

Estas práticas constroem um ambiente emocionalmente seguro, onde os adolescentes se sentem vistos, valorizados e mais disponíveis para aprender.

 

Ferramentas que criam espaço para a emoção

Falar sobre emoções nem sempre é fácil para adolescentes. Muitos não têm ainda as palavras, a confiança ou o hábito de falar sobre o que sentem, especialmente em contexto escolar. Por isso, ferramentas que criam um enquadramento seguro e estruturado tornam-se tão importantes. Elas funcionam como pontes: ajudam a transformar algo abstrato – as suas emoções – em algo que pode ser explorado, nomeado e partilhado.

Jogos, perguntas orientadas e dinâmicas de grupo são particularmente eficazes porque retiram a pressão do “falar de si” direto e colocam a atenção numa atividade partilhada. Quando o foco está no jogo ou na pergunta, o adolescente sente-se mais livre para se expressar sem medo de julgamento. A psicologia educacional mostra que este tipo de aprendizagem experiencial aumenta o envolvimento e facilita a abertura emocional.

O jogo Sabes Quem Tu És?, foi criado precisamente com esse objetivo: abrir espaço para conversas que normalmente não acontecem. Através de diferentes tipos de cartas, que convidam a pensar, imaginar, partilhar e imitar, o jogo permite que os alunos explorem emoções, crenças e as suas relações de forma natural e acessível. Em contexto escolar, ele pode ser usado como uma ferramenta para iniciar diálogos, fortalecer a empatia e criar um clima de maior respeito e compreensão dentro da turma.

Mais do que dar respostas, estas experiências ajudam os adolescentes a sentir que as suas emoções importam. E quando isso acontece, a sala de aula transforma-se num espaço onde não só se aprende, mas também se cresce como pessoa.

 

O impacto que vai para além da sala de aula

A adolescência é uma fase em que tudo parece instável: a identidade, as emoções, as relações. Neste período tão sensível, cada adulto que oferece presença, escuta e respeito torna-se uma âncora silenciosa. O professor, pela continuidade e pela influência que exerce no dia-a-dia, ocupa um lugar especialmente poderoso nesse processo.

Quando a escola se torna um espaço emocionalmente seguro, os adolescentes não aprendem apenas conteúdos. Aprendem a confiar, a persistir, a lidar com a frustração e a reconhecer o seu próprio valor. A inteligência emocional não se desenvolve em momentos isolados, mas na repetição de pequenas experiências de respeito, validação e relação. E muitas dessas experiências acontecem dentro da sala de aula.

Ao integrar a dimensão emocional no ensino, os professores estão a fazer algo que vai muito para além do currículo, honrando aquele papel profundo que, desde sempre, um professor tem na vida dos adolescentes: estão a ajudar jovens a tornarem-se adultos mais conscientes, mais equilibrados e mais capazes de criar relações saudáveis. E esse impacto não termina no final do ano letivo, acompanha-os por toda a vida.

Anos mais tarde, muitos alunos não se lembrarão de todas as matérias, mas lembrar-se-ão de como se sentiram. E sentir-se visto, respeitado e apoiado pode mudar uma vida inteira.

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