Gratidão na adolescência: uma emoção que ajuda a equilibrar a forma como os jovens se veem

Gratidão na adolescência: uma emoção que ajuda a equilibrar a forma como os jovens se veem

Na adolescência, coisas pequenas podem ganhar um peso enorme.
Um comentário de um colega, uma nota menos boa, uma fotografia nas redes sociais, uma resposta a uma mensagem que não chega… 
De repente, um dia inteiro pode ficar tingido por uma sensação de “não sou suficiente”.

Muitos adolescentes vivem neste estado silencioso de comparação e autocrítica. Podem ter amigos, família e oportunidades, mas o cérebro tende a focar-se mais no que falta, no que correu mal, no que podia ter sido melhor. É comum ouvir frases como:

“Toda a gente é melhor do que eu.”
“Nunca faço nada direito.”
“Ninguém repara em mim.”

Este olhar para si próprio através de um filtro negativo é uma parte natural do desenvolvimento emocional e neurológico da adolescência. E é precisamente aqui que a gratidão se torna tão importante.

A gratidão não apaga as dificuldades, mas ajuda o jovem a não ficar preso apenas a elas. Quando um adolescente aprende a reparar também no que está bem, nas pessoas que o apoiam, nos pequenos sucessos, nos momentos de ligação, o seu mundo interno começa a tornar-se mais equilibrado e mais gentil.

Num período da vida em que tudo parece frágil, aprender a agradecer pode ser uma âncora silenciosa.

 

Porque é que o cérebro do adolescente tende a focar-se no negativo

Durante a adolescência, o cérebro passa por uma das maiores reorganizações desde os primeiros anos de vida. As áreas responsáveis pelas emoções, como a amígdala e o sistema límbico, tornam-se especialmente ativas, enquanto o córtex pré-frontal (a parte do cérebro ligada à tomada de decisões, ao controlo de impulsos e à capacidade de colocar as coisas em perspetiva) ainda está em desenvolvimento. Isto cria um desequilíbrio temporário: o adolescente sente tudo com grande intensidade, mas ainda não dispõe totalmente das ferramentas internas para regular, relativizar ou reinterpretar essas emoções.

Ao mesmo tempo, o cérebro humano possui aquilo a que a psicologia chama viés da negatividade, uma tendência natural para dar mais peso a experiências negativas do que a positivas. Do ponto de vista evolutivo, isto fazia sentido: prestar mais atenção ao perigo aumentava as hipóteses de sobrevivência. Na adolescência, porém, este viés torna-se particularmente forte, porque o jovem está muito sensível à avaliação dos outros, à rejeição social e à comparação. Pequenos erros, críticas ou exclusões são vividos como ameaças à identidade que está a ser construída.

Investigadores como Laurence Steinberg, que estudou extensivamente o desenvolvimento do cérebro adolescente, mostram que esta fase da vida é marcada por uma reatividade emocional elevada e por uma procura intensa de pertença e aceitação. O resultado é que o adolescente tende a interpretar acontecimentos neutros ou até ligeiramente negativos de forma mais dramática, muitas vezes transformando-os em conclusões sobre quem é como pessoa. Assim, uma má nota pode tornar-se “sou burro”, uma discussão pode virar “ninguém gosta de mim” e uma comparação nas redes sociais pode confirmar a sensação de não ser suficiente. Este foco depreciativo não é uma escolha consciente, é o reflexo de um cérebro em construção a tentar dar sentido ao mundo e a si próprio.

 

Onde entra a gratidão

A gratidão entra precisamente como um contrapeso natural ao foco depreciativo que tende a dominar a mente do adolescente. Enquanto o cérebro jovem procura automaticamente aquilo que está errado, em falta ou fora do lugar, a gratidão convida a atenção a deslocar-se para o que está presente, para o que funciona e para o que tem valor. Não se trata de negar dificuldades ou fingir que tudo está bem, mas de criar uma perceção mais completa da realidade.

A psicologia positiva, com investigadores como Robert Emmons e Martin Seligman, tem mostrado que a prática regular da gratidão altera a forma como o cérebro processa a experiência. Pessoas que praticam gratidão tendem a apresentar níveis mais elevados de emoções positivas, mais satisfação com a vida e menos sintomas de ansiedade e depressão. No cérebro, a gratidão ativa redes associadas à recompensa, à ligação social e à regulação emocional, o que ajuda a suavizar a reatividade excessiva típica da adolescência.

Para um jovem que vive preso à autocrítica e à comparação, este treino de atenção faz uma enorme diferença. Ao começar a reparar conscientemente em pequenos momentos positivos, em gestos de apoio, em conquistas pessoais ou em relações significativas, o adolescente vai, pouco a pouco, criando novos caminhos mentais. A mente deixa de estar exclusivamente orientada para a falha e passa a incluir também experiências de valor e pertença. É esse equilíbrio que permite uma relação mais saudável consigo próprio e com o mundo à sua volta.

 

Gratidão e construção da identidade

Durante a adolescência, o jovem está a construir a história que conta sobre si próprio. Quem sou eu? O que valho? Como me veem os outros? Segundo Erik Erikson, esta fase é marcada pelo desafio de formar uma identidade coerente, em vez de ficar preso à confusão e à dúvida. É um período em que cada experiência, cada falha e cada reconhecimento pode pesar muito na forma como o adolescente se define.

Quando o foco está dominado pelo negativo, a identidade começa a formar-se em torno daquilo que falta, do que correu mal e das comparações com os outros. O jovem passa a ver-se através de um filtro estreito, muitas vezes injusto, em que os erros ganham mais importância do que as qualidades, e as rejeições contam mais do que as relações de apoio. Este tipo de narrativa interna fragiliza a autoestima e aumenta a sensação de insegurança.

A gratidão ajuda a ampliar essa narrativa. Ao reconhecer pessoas importantes, momentos de cuidado, conquistas pessoais e até aprendizagens que vieram de experiências difíceis, o adolescente começa a construir uma imagem mais rica de si próprio. Ele deixa de ser apenas “aquele que falhou” ou “aquele que não é suficiente” e passa a ser também alguém que é apoiado, que tem valor, que contribui e que cresce. Este alargamento da identidade cria uma base emocional mais estável, permitindo que o jovem enfrente desafios sem sentir que eles definem quem ele é.

 

Como cultivar gratidão na adolescência

A gratidão não deve ser imposta nem transformada numa obrigação. Ela desenvolve-se quando o adolescente se sente seguro para olhar para a sua própria experiência e para aquilo que vive no dia a dia. Criar esse espaço de segurança emocional é o primeiro passo para que a gratidão possa surgir de forma genuína.

Algumas formas simples de a cultivar incluem: 

  • Criar espaço para conversa
    Perguntas como “Quem te ajudou esta semana?” ou “O que te fez sentir bem hoje?” ajudam o jovem a deslocar o foco do erro e da falha para a experiência vivida, permitindo que o cérebro repare também no que foi positivo e significativo.
  • Escrita de gratidão
    Escrever regularmente uma ou duas coisas pelas quais se sente grato ajuda o adolescente a criar novos hábitos de atenção. Estudos mostram que este tipo de prática fortalece a regulação emocional e reduz a tendência para ficar preso a pensamentos negativos.
  • Reconhecer o esforço, não apenas o resultado
    Quando os adultos valorizam a intenção, o empenho e o crescimento — e não só o desempenho — ajudam o jovem a desenvolver mais apreço por si próprio e pelos outros, criando um terreno mais fértil para a gratidão.

 

A gratidão através do jogar

No jogo Sabes Quem Tu És?, a emoção da gratidão é explorada de forma completa e natural, através de quatro tipos de experiência: pensar, imaginar, partilhar e imitar.

Algumas cartas convidam o adolescente a refletir sobre o que significa ser grato. Outras levam-no a imaginar quem são as pessoas importantes na sua vida. Há cartas que pedem partilha de experiências reais e outras que envolvem o corpo e a expressão, como imitar alguém grato ou mostrar a reação a um presente inesperado.

Esta variedade é importante porque os adolescentes não aprendem todos da mesma forma. Ao viver a gratidão em diferentes níveis (mental, emocional e corporal) o adolescente começa a torná-la mais acessível no dia-a-dia.

Mais do que responder a perguntas, ele constrói uma relação mais saudável com a forma como vê a sua vida, as suas relações e a si próprio.

 

Um pequeno hábito, um grande impacto

A adolescência é uma fase em que tudo parece frágil: a autoestima, as relações, a imagem que o jovem tem de si próprio. Num cérebro que tende a amplificar o erro e a comparação, pequenos hábitos emocionais podem ter um efeito muito maior do que imaginamos.

A gratidão não apaga as dificuldades, nem resolve todos os conflitos internos. Mas ajuda o adolescente a não ficar preso apenas ao que corre mal. Ao aprender a reparar também no que é bom, no que é apoio, no que é presença, o jovem constrói uma relação mais equilibrada com a sua própria experiência.

Com o tempo, esta mudança de foco contribui para uma identidade mais estável, uma autoestima mais segura e relações mais próximas. Não porque a vida se torna perfeita, mas porque o olhar sobre ela se torna mais humano.

E, numa fase da vida em que o mundo interno está em construção, isso pode fazer toda a diferença.

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