Ser pai ou mãe parece trazer consigo uma pergunta que raramente desaparece por completo: «Estarei a fazer o suficiente?»
Queremos estar presentes, escutar, compreender as emoções dos nossos filhos, estabelecer limites com respeito, estimular a autonomia e oferecer-lhes as melhores condições para crescerem felizes e seguros. Procuramos informação, questionamos as nossas escolhas e tentamos fazer melhor quando sentimos que podíamos ter agido de outra forma.
Mas, por vezes, quanto mais sabemos sobre aquilo de que as crianças precisam, mais conscientes nos tornamos de tudo aquilo que poderíamos estar a fazer.
Se perdemos a paciência, sentimos culpa. Se não conseguimos dedicar-lhes o tempo que gostaríamos, perguntamo-nos se estamos a falhar. Se ficam frustrados, tristes ou zangados com uma decisão nossa, podemos começar a duvidar se fizemos a escolha certa. E até quando tudo parece estar a correr bem, há sempre alguma coisa que poderíamos ter feito de maneira diferente.
A parentalidade pode tornar-se, assim, um exercício permanente de auto-avaliação, em que cada decisão parece ter um peso enorme e cada dificuldade nos faz questionar a nossa capacidade para educar.
Mas será que as necessidades reais das crianças correspondem a este ideal de disponibilidade, paciência e acerto constantes? E o que acontece ao nosso bem-estar emocional quando sentimos que temos de corresponder a esse ideal?
Há várias décadas, o pediatra e psicanalista Donald Winnicott introduziu uma ideia que continua a desafiar a forma como pensamos a parentalidade: a de uma mãe suficientemente boa. À primeira vista, a expressão pode parecer estranha. Afinal, quando se trata dos nossos filhos, quem quer ser apenas suficientemente bom?
Talvez valha a pena descobrir o que Winnicott queria realmente dizer com isso. E perceber por que razão este conceito pode ser particularmente importante numa época em que tantos pais sentem que, por mais que façam, nunca é suficiente.
O que significa, afinal, ser um pai suficientemente bom?
A expressão «mãe suficientemente boa» (good enough mother) foi introduzida pelo pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott, que dedicou grande parte do seu trabalho à compreensão do desenvolvimento emocional infantil e da importância das primeiras relações de cuidado.
Para Winnicott, nos primeiros tempos de vida, o bebé depende profundamente da capacidade de quem cuida de reconhecer e responder às suas necessidades. Através de uma presença atenta e sensível, vai construindo uma experiência de segurança que lhe permite, progressivamente, relacionar-se com o mundo à sua volta.
Mas esta relação não permanece igual à medida que a criança cresce. Com o desenvolvimento, o cuidador vai ajustando a sua resposta às capacidades que a criança começa a adquirir. Nem todas as necessidades podem ser satisfeitas imediatamente, nem todos os desejos podem ser realizados e nem todas as dificuldades precisam de ser resolvidas pelo adulto.
Uma das ideias mais interessantes de Winnicott é esta: uma relação de cuidado suficientemente boa também permite que a criança encontre pequenas frustrações, desde que estas sejam compatíveis com a sua capacidade de lidar com elas e aconteçam num contexto de segurança e apoio.
Pensemos num bebé que, nos primeiros meses, precisa de uma resposta muito próxima e consistente às suas necessidades. À medida que cresce, começa gradualmente a conseguir esperar um pouco, explorar o ambiente e tolerar pequenas separações. Esta evolução torna-se possível através de uma relação que se adapta ao seu desenvolvimento, oferecendo proteção e permitindo, progressivamente, novas experiências de autonomia.
É importante compreender o contexto original deste conceito. Winnicott desenvolveu-o sobretudo a partir da relação entre a mãe e o bebé, numa época em que os cuidados infantis eram pensados de forma muito centrada na figura materna. Hoje, podemos retirar desta perspetiva uma reflexão mais ampla sobre o papel dos pais e de outros cuidadores significativos, reconhecendo que as relações de cuidado podem assumir diferentes configurações.
Também devemos evitar uma interpretação demasiado simplificada da expressão «suficientemente bom». Winnicott não estava a sugerir que a falta de atenção às necessidades da criança fosse benéfica ou que os adultos devessem provocar frustrações para a tornar mais resistente. A ideia central está na adaptação progressiva dos cuidados às necessidades e capacidades da criança, dentro de uma relação suficientemente segura e responsiva.
Esta perspetiva convida-nos a questionar algumas expectativas que colocamos sobre a parentalidade. Será necessário antecipar todas as necessidades dos nossos filhos? Evitar-lhes qualquer desconforto? Estar sempre disponíveis para resolver aquilo que os preocupa? Ou poderá haver momentos em que cuidar também significa dar espaço para esperar, experimentar e descobrir capacidades próprias?
A resposta depende sempre da idade, do desenvolvimento e das circunstâncias da criança. Uma necessidade de um bebé não pode ser encarada da mesma forma que a frustração de uma criança mais velha perante um limite. Ser suficientemente bom exige sensibilidade para perceber de que apoio a criança precisa em cada momento e como é que esse apoio pode evoluir à medida que cresce.
E há uma dimensão deste conceito que merece especial atenção: aquilo que acontece emocionalmente aos próprios pais quando sentem que deveriam conseguir responder sempre da melhor maneira.
Quando queremos fazer tudo bem, o que acontece às nossas emoções?
A vontade de sermos bons pais pode ser uma força muito positiva. Leva-nos a procurar informação, a refletir sobre as nossas escolhas e a prestar atenção às necessidades dos nossos filhos. Mas, quando começamos a sentir que cada decisão tem de ser a melhor possível, essa vontade pode transformar-se numa fonte constante de pressão.
A investigação sobre perfeccionismo parental tem procurado compreender esta relação entre as expectativas que os pais colocam sobre si próprios e o seu bem-estar. É diferente desejar de cuidar bem dos filhos da sensação de que cometer erros é inaceitável ou de que o nosso valor enquanto pais depende de correspondermos a um ideal muito exigente. É sobretudo esta segunda dimensão que pode tornar a experiência da parentalidade emocionalmente mais pesada.
E esse peso manifesta-se de diferentes formas.
Pode surgir culpa quando perdemos a paciência, quando trabalhamos até mais tarde ou quando sentimos necessidade de algum tempo para nós. Em determinadas situações, esta emoção ajuda-nos a reconhecer que gostaríamos de ter agido de outra maneira. Mas também pode aparecer perante escolhas perfeitamente legítimas, simplesmente porque sentimos que deveríamos conseguir oferecer mais: mais tempo, mais atenção, mais disponibilidade, mais experiências.
A ansiedade encontra espaço nas inúmeras decisões que acompanham o crescimento de uma criança. Estaremos a estabelecer os limites certos? Devíamos intervir ou deixá-la tentar sozinha? Estamos a estimular suficientemente o seu desenvolvimento? E se uma decisão aparentemente pequena tiver consequências importantes? Quando sentimos que temos de antecipar todos os riscos, torna-se difícil confiar nas escolhas que fazemos.
Há também frustração, sobretudo quando a realidade da parentalidade não corresponde àquilo que imaginávamos. Podemos conhecer estratégias de educação emocional, compreender a importância da calma e querer responder com respeito, mas continuar a sentir irritação perante uma birra, uma recusa persistente ou um conflito entre irmãos. Por vezes, à frustração com a situação junta-se outra: a de percebermos que estamos a sentir precisamente aquilo que gostaríamos de conseguir gerir melhor.
E, por detrás de muitas destas emoções, pode existir um medo profundo de falhar. De não oferecer aos nossos filhos aquilo de que precisam, de repetir padrões que gostaríamos de evitar ou de descobrir, mais tarde, que poderíamos ter feito alguma coisa de maneira diferente.
A pressão torna-se particularmente exigente quando começamos a interpretar cada momento difícil como uma avaliação da nossa competência parental. Uma criança que chora perante um limite pode fazer-nos questionar se fomos demasiado rígidos. Uma discussão ao final do dia pode levar-nos a pensar que estamos a prejudicar a relação. Uma dificuldade na escola pode despertar a sensação de que devíamos ter feito mais para a prevenir.
Mas as emoções e os comportamentos dos nossos filhos não são uma medida permanente da qualidade da nossa parentalidade. As crianças também ficam frustradas em relações seguras, resistem a limites adequados e atravessam dificuldades que fazem parte do seu desenvolvimento.
A ideia de sermos pais suficientemente bons pode oferecer-nos uma perspetiva diferente. Podemos começar a avaliar as nossas escolhas considerando as necessidades reais da criança, a qualidade da relação ao longo do tempo e os recursos de que dispomos, em vez de exigirmos que cada interação corresponda a um ideal de perfeição.
Isto também nos permite olhar para as nossas emoções com maior curiosidade. Quando sentimos culpa, podemos perguntar-nos se existe algo que precisamos de reparar ou se estamos a exigir de nós uma disponibilidade impossível. Quando sentimos ansiedade, podemos procurar distinguir aquilo que está ao nosso alcance daquilo que não conseguimos controlar. E quando surge frustração, podemos reconhecer que também temos necessidades, limites e dias mais difíceis e procurar definir novas estratégias de atuação.
Esta mudança de perspetiva pode ser essencial perante uma experiência que muitos pais conhecem bem: o desconforto de ver um filho frustrado e sentir que deveríamos fazer alguma coisa para que deixe imediatamente de se sentir assim.
Podemos levar a responsabilidade de educar muito a sério e, ao mesmo tempo, aprender a olhar para nós próprios com expectativas mais realistas e alguma compreensão.
Aprender a tolerar a frustração dos nossos filhos… e a nossa
Ver um filho frustrado pode ser uma das experiências mais desconfortáveis da parentalidade. Quando a criança chora porque não pode ter aquilo que deseja, fica zangada perante um limite ou se sente desiludida com alguma coisa que não correu como esperava, é natural que queiramos aliviar rapidamente esse mal-estar.
Por vezes, o desconforto da criança desperta emoções igualmente intensas em nós. Podemos sentir culpa por termos dito que não, ansiedade por recearmos que esteja a sofrer ou frustração por não conseguirmos resolver a situação. E, quando estas emoções se tornam difíceis de suportar, podemos sentir vontade de ceder, distrair ou encontrar imediatamente uma solução.
O conceito de Winnicott ganha uma dimensão muito concreta neste contexto. À medida que cresce, a criança vai desenvolvendo capacidade para lidar com pequenas experiências de frustração, desde que encontre segurança e apoio adequados às suas necessidades. Permitir que uma criança se sinta frustrada perante uma situação que consegue progressivamente aprender a enfrentar também pode fazer parte de cuidar dela.
Imaginemos uma criança que está a tentar construir uma torre e fica irritada porque os blocos caem repetidamente. Podemos sentir vontade de intervir e mostrar-lhe como fazer, sobretudo quando percebemos que está prestes a desistir. Mas talvez possamos começar por reconhecer aquilo que está a sentir: «É frustrante quando tentamos muitas vezes e não conseguimos.» Podemos ficar por perto, oferecer ajuda se for necessária e dar-lhe oportunidade de experimentar novamente.
Noutra situação, a frustração pode surgir porque chegou a hora de desligar a televisão. A criança protesta, chora ou insiste em continuar a ver o programa. Se o limite é adequado, podemos mantê-lo e reconhecer a desilusão: «Eu sei que querias continuar a ver. É difícil parar quando estamos a gostar.» A tristeza ou a zanga que surgem perante esse limite não significam, por si só, que tenhamos tomado uma decisão errada.
Estas situações têm algo em comum: a criança pode sentir uma emoção desconfortável e continuar a encontrar no adulto uma presença segura. O nosso papel passa por ajudá-la a atravessar a experiência, ajustando o apoio à sua idade, às suas capacidades e à intensidade daquilo que está a sentir.
A investigação sobre o desenvolvimento da autorregulação mostra a importância da co-regulação, isto é, do apoio que os adultos oferecem para ajudar as crianças a gerir emoções e comportamentos enquanto estas capacidades ainda estão em desenvolvimento. Progressivamente, através de experiências repetidas e adequadas, a criança vai adquirindo mais recursos para responder com autonomia. A capacidade de tolerar frustrações constrói-se neste processo, com tempo, apoio e oportunidades para experimentar.
Mas existe uma aprendizagem paralela que diz respeito aos próprios pais: também nós podemos desenvolver maior tolerância ao desconforto de ver os nossos filhos frustrados.
Quando uma criança chora porque mantivemos um limite, podemos sentir culpa e, ainda assim, reconhecer que aquele limite faz sentido. Quando enfrenta uma dificuldade, podemos sentir ansiedade e escolher esperar um pouco antes de intervir. Quando está zangada connosco, podemos aceitar que essa zanga faça parte da relação, sem sentir que precisamos de recuperar imediatamente a sua aprovação.
Naturalmente, isto exige sensibilidade. Há uma diferença importante entre uma frustração que a criança consegue enfrentar com apoio e uma situação que ultrapassa os seus recursos ou compromete a sua segurança. Um bebé que chora porque precisa de cuidados, uma criança em sofrimento intenso ou uma situação de medo persistente exigem respostas diferentes a uma contrariedade quotidiana. O desenvolvimento emocional beneficia de desafios ajustados às capacidades da criança, acompanhados por relações que são protetoras e dão resposta adequadas.
Talvez uma das mudanças mais importantes esteja, por isso, na pergunta que fazemos a nós próprios perante o desconforto dos nossos filhos. Em vez de procurarmos imediatamente uma forma de fazer desaparecer aquela emoção, podemos perguntar: «De que é que o meu filho precisa de mim neste momento?»
Por vezes, precisará que intervenhamos. Outras vezes, de ajuda para encontrar uma solução. E haverá momentos em que aquilo de que mais precisa é que consigamos permanecer ao seu lado, com tranquilidade, enquanto aprende a lidar com algo que ainda lhe custa.
Quando aprendemos a tolerar algumas das frustrações dos nossos filhos, damos-lhes espaço para desenvolver os seus próprios recursos e descobrimos que cuidar também pode significar confiar naquilo que, aos poucos, se tornam capazes de enfrentar.
O que muda quando deixamos de procurar a resposta perfeita?
Aceitar que podemos ser pais suficientemente bons tem implicações que vão além da forma como lidamos com as dificuldades dos nossos filhos. Também pode mudar a maneira como organizamos os rotinas diárias, tomamos decisões e olhamos para as nossas próprias necessidades.
Pensemos na pressão para aproveitar bem o tempo que passamos em família. Queremos proporcionar experiências enriquecedoras, estimular o desenvolvimento, criar memórias felizes e estar verdadeiramente presentes. Tudo isto pode ser importante, mas, quando sentimos que cada momento deve ter algum valor educativo, até o tempo livre pode transformar-se numa tarefa. Uma tarde tranquila em casa, uma brincadeira espontânea ou um momento em que cada pessoa está ocupada com os seus interesses podem começar a parecer oportunidades desperdiçadas.
Uma perspetiva suficientemente boa permite-nos reconhecer o valor de uma vida familiar que também tem momentos comuns, dias menos interessantes e planos que não se concretizam. As crianças precisam de atenção, afeto, segurança e oportunidades de desenvolvimento, mas a qualidade da relação não depende de conseguirmos transformar cada momento numa experiência especial.
Esta exigência também pode surgir quando precisamos de estabelecer prioridades. Há dias em que o trabalho se prolonga, em que estamos cansados ou em que simplesmente não temos disponibilidade para brincar naquele instante. Podemos reconhecer a desilusão da criança e combinar outro momento, sem interpretar automaticamente essa indisponibilidade como uma falha nossa. As necessidades dos pais também fazem parte da vida familiar e encontrar formas equilibradas de as satisfazer é importante para o bem-estar de todos.
A mesma postura pode ajudar-nos perante decisões sobre as quais não existe uma resposta perfeita. Escolher uma atividade extracurricular, decidir como organizar os horários ou perceber quando devemos intervir num conflito são questões que dependem das características da criança, dos recursos da família e das circunstâncias de cada momento. Podemos informar-nos, refletir e fazer escolhas cuidadas, aceitando que nem sempre saberemos antecipadamente qual será a melhor opção.
Talvez uma das mudanças mais significativas aconteça na forma como avaliamos a nossa parentalidade. Depois de um dia difícil, é fácil ficarmos presos à resposta impaciente que demos, à atividade que não conseguimos fazer ou à conversa para a qual nos faltou disponibilidade. Esses momentos merecem atenção quando há algo a compreender ou reparar, mas não precisam de se transformar num julgamento sobre tudo aquilo que somos enquanto pais.
Podemos começar a olhar para a relação numa perspetiva mais ampla. Existe afeto? A criança encontra apoio quando precisa? Procuramos compreender as suas necessidades e ajustar a forma como cuidamos dela à medida que cresce? Conseguimos reconhecer situações que precisam de mudar e procurar ajuda quando os nossos recursos não chegam?
Estas perguntas permitem-nos pensar na qualidade dos cuidados de uma forma mais realista. Também nos lembram de que ser suficientemente bom não significa aceitar passivamente tudo aquilo que acontece. Há comportamentos que precisamos de mudar, dificuldades que exigem atenção e circunstâncias em que procurar apoio é essencial. A diferença está em podermos fazê-lo a partir de uma atitude de responsabilidade e aprendizagem, sem transformar cada dificuldade numa evidência de que estamos a falhar.
No fundo, a ideia de Winnicott convida-nos a confiar um pouco mais naquilo que se constrói ao longo do tempo. A relação com os nossos filhos desenvolve-se através de muitas experiências, adaptações e descobertas, enquanto eles crescem e nós aprendemos a acompanhá-los de novas maneiras.
E talvez haja algum alívio em perceber que podemos continuar profundamente comprometidos com o bem-estar dos nossos filhos, mesmo quando não conseguimos fazer tudo aquilo que idealizámos.
Conclusão
Há uma enorme responsabilidade em educar uma criança. Queremos protegê-la, compreender aquilo de que precisa e oferecer-lhe as melhores condições para crescer. É natural que essa responsabilidade nos leve a questionar escolhas, procurar respostas e desejar fazer sempre um pouco melhor.
Mas, quando o desejo de cuidar se transforma na obrigação de acertar constantemente, a parentalidade pode tornar-se um lugar de ansiedade, culpa e insatisfação. Por mais que façamos, parece existir sempre uma versão de nós próprios mais paciente, mais disponível, mais informada e mais capaz de responder a tudo.
A ideia de sermos pais suficientemente bons convida-nos a olhar para esta exigência de outra forma. Podemos levar as necessidades dos nossos filhos muito a sério e reconhecer que também temos necessidades, emoções e limites. Podemos oferecer segurança sem conseguir evitar todas as frustrações. Podemos acompanhar o seu crescimento e confiar, progressivamente, nas capacidades que vão desenvolvendo.
Uma das aprendizagens mais exigentes da parentalidade é aceitar que os nossos filhos vão viver momentos difíceis, mesmo quando estamos a cuidar bem deles. Vão sentir-se frustrados com decisões nossas, encontrar obstáculos que não conseguimos resolver e desejar coisas que nem sempre lhes podemos oferecer. E nós também teremos dúvidas, dias de pouca paciência e escolhas que, mais tarde, talvez fizéssemos de outra maneira.
A qualidade da relação que construímos com os nossos filhos merece toda a nossa atenção. Mas merece também ser vivida com espaço para aprender, ajustar expectativas e crescer em conjunto.
E se começássemos a medir menos a nossa parentalidade por tudo aquilo que ainda poderíamos fazer mais e a reconhecer um pouco mais aquilo que já conseguimos construir?
Os nossos filhos precisam de nós, com o nosso cuidado, a nossa disponibilidade possível e a nossa vontade de continuar a aprender. E talvez possamos permitir-nos sentir que isso também tem valor.
FAQs
O que significa ser um pai ou uma mãe suficientemente bom?
O conceito de mãe suficientemente boa, desenvolvido pelo pediatra e psicanalista Donald Winnicott, descreve uma relação de cuidado que responde de forma sensível às necessidades da criança e se adapta progressivamente ao seu desenvolvimento. À medida que cresce, a criança vai adquirindo recursos para lidar com pequenas frustrações e desenvolver autonomia, mantendo uma relação de segurança e apoio com os seus cuidadores.
Ser suficientemente bom significa que não precisamos de nos preocupar tanto com a educação dos nossos filhos?
Ser suficientemente bom continua a implicar atenção, responsabilidade e sensibilidade às necessidades da criança. O conceito convida-nos a reconhecer que o desenvolvimento infantil acontece ao longo de muitas experiências e que os cuidados precisam de se ajustar à idade e às capacidades da criança. Podemos procurar melhorar enquanto pais sem exigir que todas as nossas decisões e respostas sejam perfeitas.
Porque sentimos tanta culpa enquanto pais?
A culpa parental pode surgir quando sentimos que não correspondemos às expectativas que temos sobre o nosso papel. Perder a paciência, ter pouco tempo disponível ou precisar de momentos para nós próprios pode despertar a sensação de que deveríamos estar a fazer mais. É importante distinguir a culpa que nos ajuda a reconhecer algo que queremos mudar daquela que resulta de expectativas pouco realistas sobre aquilo que conseguimos oferecer.
Como lidar com a frustração dos nossos filhos sem sentir que estamos a falhar?
Podemos começar por reconhecer que a frustração faz parte do desenvolvimento e que uma criança pode ficar triste ou zangada mesmo perante uma decisão adequada. O importante é perceber de que apoio precisa naquele momento. Podemos acolher a emoção, manter um limite quando necessário e ajudá-la a encontrar recursos para lidar com a situação. A reação emocional da criança, por si só, não determina se tomámos uma boa decisão.
Deixar uma criança lidar com pequenas frustrações ajuda a desenvolver autonomia?
Sim, quando as experiências são adequadas à idade e às capacidades da criança e acontecem num contexto de segurança e apoio. Esperar um pouco, tentar novamente depois de uma dificuldade ou encontrar uma solução com alguma orientação são oportunidades para desenvolver autonomia e autorregulação. O adulto continua disponível para oferecer ajuda e intervir quando a situação ultrapassa os recursos da criança.
Como podemos saber se estamos a exigir demasiado de nós enquanto pais?
Pode ser útil prestar atenção à forma como avaliamos as nossas decisões e experiências. Se sentimos frequentemente que nunca fazemos o suficiente, temos dificuldade em aceitar pequenas falhas ou interpretamos cada emoção desconfortável dos nossos filhos como sinal de que errámos, talvez estejamos a colocar sobre nós expectativas demasiado exigentes. Refletir sobre as necessidades reais da criança, os recursos da família e a qualidade da relação ao longo do tempo pode ajudar a construir uma perspetiva mais equilibrada.
É possível ser um pai suficientemente bom e continuar a cometer erros?
Sim. Todos os pais atravessam momentos de cansaço, frustração e dificuldade. O importante é manter uma atitude de atenção às necessidades da criança, reconhecer quando alguma coisa precisa de mudar e procurar reparar situações em que a nossa resposta teve um impacto negativo. Quando os erros são frequentes, intensos ou difíceis de gerir, procurar apoio também é uma forma de cuidar da relação.





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